A cena é comum: as frestas de uma fachada que rui, as fissuras de um edifício onde outrora se prometia estabilidade e progresso. Nosso tempo, dilacerado por polarizações, parece confirmar a intuição de Gramsci, citada pela filósofa Nancy Fraser, de que “o velho está morrendo e o novo não pode nascer”. Mas a análise desse interregno, por mais sofisticada que se apresente, deve resistir à tentação do reducionismo e à armadilha da desinformação, para que a verdade e a caridade não sejam devoradas junto com as promessas de um futuro melhor.
Nancy Fraser, com a autoridade de décadas de pesquisa e citações robustas, oferece um diagnóstico cáustico: o “capitalismo canibal”, um sistema que, em sua ânsia por acumulação, devora as próprias condições de sua existência — o trabalho de cuidado não remunerado, o poder público, a natureza, e o trabalho racializado. Essa interpretação ressoa com uma preocupação legítima da Doutrina Social da Igreja: a exploração do trabalho humano e a mercantilização de bens essenciais, que aviltam a dignidade da pessoa e subvertem a ordem dos bens. O que Fraser chama de “estraçalhamento da ordem moral pós-Holocausto do Ocidente”, visível no conflito de Gaza, ecoa o clamor por uma Realeza Social de Cristo que ordene as nações à justiça, em vez de se curvar à desordem e à violência.
A crítica de Fraser ao “neoliberalismo progressista” e à “Terceira Via” de Clinton, Blair e Schröder também aponta para um paradoxo que Chesterton certamente apreciaria: o progressismo que, ao cooptar pautas de reconhecimento, paradoxalmente consolida um sistema de exploração. O problema não é o desejo legítimo por reconhecimento ou por avanço social, mas a instrumentalização dessas aspirações para desviar o olhar das injustiças estruturais no trabalho e na distribuição da propriedade. Aqui, a veracidade impõe a distinção entre a justiça que realmente emancipa e a retórica que apenas maquia a servidão, enquanto a subsidiariedade exige a proteção e o fortalecimento dos corpos intermediários contra a hipertrofia do poder, seja ele estatal ou corporativo-oligárquico.
Contudo, se a crítica sistêmica pode, por vezes, pecar pela abstração, a reação a ela frequentemente escorrega para a vulgaridade da mentira. É o que se observa na retórica de Juliano Cazarré e seu movimento “O Farol e a Forja”. A afirmação de que “mais mulheres mataram homens do que homens mataram mulheres” no Brasil não é um debate de ideias; é uma informação descaradamente falsa, um desprezo pela veracidade que ignora os 1.568 feminicídios registrados em 2025. Tal declaração, além de ultrajar a memória das vítimas, desvirtua a legítima preocupação com a família e a masculinidade para um propósito de polarização e negação da realidade. A Doutrina da Igreja, longe de relativizar a violência, clama por justiça para os vulneráveis e pela caridade que se manifesta na proteção do inocente.
O cenário global, com a ascensão de figuras como Zohran Mamdani – um prefeito socialista que jura sobre o Alcorão e propõe soluções concretas para salário e moradia – e a descrença nos “europeus” como alternativa civilizatória, apenas acentua a desorientação. A tecnologia, que Fraser vê controlada por oligarcas como Elon Musk para a acumulação de capital, de fato apresenta um potencial ambivalente que, sem uma ordem moral e um propósito de serviço, pode agravar as desigualdades.
A resposta a este tempo não pode ser a adesão acrítica a diagnósticos totalizantes nem a fuga para retóricas de confronto baseadas em falsidades. A justiça clama por uma ordem econômica que respeite a função social da propriedade e a dignidade do trabalho. A caridade exige a atenção aos mais vulneráveis – às mulheres vítimas de violência, aos trabalhadores precarizados, aos imigrantes sem voz. Os problemas do enfraquecimento dos laços familiares e da perda de sentido para a vida masculina, embora reais, não podem ser respondidos com distorções factuais ou com a mercantilização de pregações.
O edifício da sociedade não se sustenta sobre a precarização ou a mentira. Ele se ergue sobre alicerces imutáveis da lei natural, da família como sociedade primeira, da subsidiariedade que protege os corpos intermediários e da solidariedade que nos faz um com o outro. A reconstrução da casa comum não se fará sobre as ruínas da mentira nem sobre os escombros da exploração, mas sobre a rocha da Caridade e da Justiça, que apontam para a Realeza Social de Cristo, único fundamento que subsiste.
Fonte original: racismoambiental.net.br
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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