Quando o coração da vida pública, a Câmara Municipal, transforma-se não em um fórum de deliberação, mas em um ringue de gladiadores, a perda não é apenas de decoro, mas da própria substância da política. A recente votação do reajuste salarial dos servidores públicos de São Paulo, aprovada em 3,51% e parcelada em dois anos, deveria ser um exercício de justiça distributiva e planejamento prudente. Contudo, os fatos mostram um espetáculo de ofensas mútuas, acusações de repressão e desqualificação que minam a legitimidade do ato, não importa quão legal ele tenha sido em sua formalidade.
É justo que os servidores busquem a valorização de seu trabalho, e o reajuste, mesmo que modesto e escalonado, é uma resposta a essa demanda. Mas o que se viu na Câmara, com vereadores trocando impropérios e a galeria se convertendo em palco de confusão entre a Guarda Civil Metropolitana e manifestantes, está aquém do que a ordem moral pública exige de suas instituições. As alegações de agressões físicas e verbais, de um lado, e de “bagunça” e “bebida alcoólica” por parte dos manifestantes, de outro, demandam mais que denúncias; exigem apuração rigorosa e transparente, para que a verdade seja devidamente estabelecida e a justiça processual restaurada.
São Tomás de Aquino nos ensina que o bem comum é a finalidade da vida política, e que para alcançá-lo, a reta razão e a virtude são indispensáveis. A veracidade, em particular, é a base sobre a qual se ergue qualquer diálogo construtivo. Chamar servidores de “vagabundos, primatas e canalhas” ou reduzir manifestações a meras “bagunças” não é o exercício da liberdade de expressão, mas a corrupção do debate. Tais declarações, ao invés de iluminar os problemas da cidade com argumentos e fatos, obscurecem-nos com a fumaça da calúnia e do desrespeito. Elas transformam “povo” em “massa”, conforme a crítica de Pio XII, dissolvendo a dignidade das pessoas em um amontoado anônimo, fácil de ser vilipendiado.
A democracia exige paixão, mas essa paixão deve ser ordenada pela razão e temperada pela caridade. O espetáculo da Câmara de São Paulo revela uma triste inversão: a energia devotada a desqualificar o adversário supera, muitas vezes, o esforço por encontrar soluções reais para os problemas da cidade. Chesterton, com sua sanidade peculiar, nos lembraria que a verdadeira loucura não está em discordar, mas em destruir as pontes que permitem o encontro das razões, substituindo a argumentação pela bofetada verbal. A lógica das ideologias, quando levada ao extremo, canibaliza a própria possibilidade de vida civilizada.
O custo de tal conduta vai muito além da imagem arranhada da instituição. Ele erode a confiança da população nos seus representantes e nas instâncias democráticas. Quando a casa do povo deixa de ser um lugar seguro para o diálogo e se torna um campo de batalha, a cidade inteira padece. A aprovação do reajuste salarial, portanto, é apenas uma parte da história; a outra, mais sombria, é o testemunho de uma deliberação pública que falhou em sua mais elementar missão de edificar a ordem social sobre a veracidade dos fatos e a justiça nas relações.
Não se constrói uma sociedade sólida sobre as areias movediças da ofensa e da polarização incessante. A política, em sua vocação mais alta, é o esforço para organizar a vida comum em busca do bem, e isso só é possível onde a dignidade de cada um é pressuposto inegociável, e a verdade, não a gritaria, é a medida do debate. A cidade de São Paulo merece mais do que um palco de pugilato.
Fonte original: Último Segundo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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