O discurso político, no seu afã de mover corações e urnas, frequentemente se inclina à simplificação, à promessa de um líder único que, pela força de seu caráter, desatará os nós mais intricados da nação. Ronaldo Caiado, ao apresentar-se como pré-candidato à Presidência, encarna essa retórica com a ênfase em sua “autoridade moral” e “exemplo de vida”, contrastando sua gestão em Goiás com as fragilidades do governo federal. As preocupações levantadas por ele – o avanço da criminalidade, a deterioração fiscal e a centralização de poder em Brasília – são, sem dúvida, reais e afligem o povo brasileiro. Contudo, a verdadeira arquitetura de uma república justa não se sustenta apenas na estatura moral de um homem, mas na solidez de seus alicerces institucionais, na equidade de suas leis e na reta ordenação dos bens que visam à vida comum.
É inegável que a situação fiscal do país clama por rigor e responsabilidade. A dívida pública e privada crescente, os juros escorchantes e as políticas que Caiado aponta como “gastança irresponsável” exigem uma análise profunda e, sobretudo, medidas de justiça distributiva. O programa “Desenrola”, em vez de ser uma solução estrutural, surge como um paliativo, uma tentativa de “quebrar o termômetro” em vez de tratar a febre econômica. A doutrina social da Igreja, ao falar de propriedade com função social e salário justo, sempre advertiu contra o endividamento que esmaga o homem e a família, e a gestão da coisa pública deve mirar na estabilidade e na prosperidade partilhada, não em ganhos políticos efêmeros. Mas essa estabilidade exige mais que uma simples inversão de sinal; demanda um plano robusto que reconheça a complexidade do sistema, o papel dos bancos centrais, e as condições fiscais herdadas, evitando a tentação de soluções personalistas para problemas sistêmicos.
Igualmente grave é a denúncia do avanço das facções criminosas, que, segundo o pré-candidato, chegam a “subordinar 60 milhões de brasileiros” e disputam territorialmente o Estado. O combate ao crime organizado é um dever primário de qualquer governo, uma questão de ordem moral pública que visa à segurança e à liberdade dos cidadãos. A coragem de enfrentar essas “multinacionais do crime” é uma virtude indispensável à fortaleza do governante. Todavia, quando se observa a aprovação de uma legislação estadual para garantir a proteção de segurança e inteligência para Caiado e sua família após o mandato, uma incômoda interrogação se levanta: o princípio da igualdade perante a lei não seria corroído por privilégios, ainda que justificados por riscos pessoais? A defesa da lei deve ser universal e exemplar, sem exceções que possam, mesmo sem intenção, enfraquecer a percepção da imparcialidade da justiça.
A bandeira de “menos Brasília e mais estados”, defendida por Caiado, ecoa o princípio da subsidiariedade, tão caro à Doutrina Social da Igreja desde Pio XI. É um clamor legítimo contra a estatolatria e a concentração de poder que sufoca a autonomia municipal e estadual, como se vê na reforma tributária. O respeito aos corpos intermediários e às realidades locais é vital para uma federação saudável. Mas essa descentralização deve ser justa, garantindo que a maior autonomia não se traduza em ainda mais disparidades regionais, onde as capacidades fiscais e administrativas variam drasticamente. A crítica à burocracia e aos órgãos de controle não pode servir de pretexto para o enfraquecimento das instituições que zelam pela transparência, pela proteção ambiental e pelos direitos das minorias, pois a humildade de um governante se mede também pela sua capacidade de se submeter a um ordenamento legal impessoal.
A insistência na “história de vida” e na “coerência” como garantia de bom governo, embora ressalte qualidades desejáveis em qualquer líder, corre o risco de um personalismo que Chesterton, com sua sanidade paradoxal, tanto criticava. A crença de que um “líder” ou “presidente” salvaguardará o país apenas por sua virtude pessoal ignora que a saúde de uma nação se ergue sobre fundamentos mais vastos e perenes: uma constituição respeitada, um sistema de freios e contrapesos eficaz, um poder judiciário independente e uma sociedade civil vibrante. A república não é um cavalo branco que come nos pastos do líder, mas um edifício que exige a colaboração de muitos arquitetos e operários, cada qual cumprindo sua parte com honestidade e visão de futuro.
O Brasil não necessita apenas de um novo capitão para o navio em águas turbulentas, mas de um estaleiro que reconstrua a embarcação com materiais mais duradouros e um projeto naval que preveja as tempestades futuras. A eleição de 2026, e os desafios de 2027 com a “bomba fiscal” que Caiado aponta, demandam um programa de governo que se assente na justiça institucional, na prudência administrativa e na humildade de reconhecer que os grandes problemas nacionais requerem soluções que transcendam a figura de um único homem, por mais virtuoso que se apresente. O verdadeiro estadista não é aquele que se impõe pela imagem, mas o que trabalha para que a nação se torne capaz de governar-se a si mesma, de forma justa e solidária, por meio de leis impessoais e instituições fortes.
Fonte original: ND
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.