Atualizando...

Paula Belmonte, Brasília e BRB: A DSI desafia a ‘boa nova’

Brasília, 66 anos, enfrenta crise de gestão. Paula Belmonte critica o BRB e abandono de serviços. Analisamos sua retórica e propostas sob a luz da DSI.

🟢 Análise

Brasília, cidade planejada para ser o coração de uma nação, símbolo de aspiração e ordem, completa 66 anos com as cicatrizes visíveis de promessas não cumpridas. A pré-candidatura de Paula Belmonte ao governo do Distrito Federal emerge desse cenário, munida de um arsenal de críticas à gestão vigente e ao estado de abandono que aflige escolas e hospitais. É um lamento compreensível, o de ver crianças sentadas em escadas para almoçar ou pacientes no chão, à espera de socorro. Tais imagens, que evocam um descuido primário com a dignidade da pessoa humana, são o testemunho de uma falha grave naquilo que São Tomás de Aquino chamaria de a devida justiça para com os cidadãos.

A pauta da transparência e da boa gestão, insistentemente levantada pela pré-candidata, encontra eco direto nas exigências da Doutrina Social da Igreja. Pio XI, ao criticar a estatolatria e defender a subsidiariedade, já alertava para os riscos de uma máquina estatal que se engrandece sem servir. Quando o Banco de Brasília (BRB), uma instituição pública, enfrenta denúncias de “maior fraude financeira” e balanços não divulgados, não se trata de mero problema técnico, mas de uma profunda lesão à veracidade que é devida aos governados. O presidente do banco promete laudos que não chegam, e a venda de parte da instituição a uma empresa, depois bloqueada, deixa a sombra de uma irresponsabilidade que atinge o erário e, por consequência, a vida comum do brasiliense.

Contudo, se a indignação com a má gestão e a opacidade é legítima, a proposta de “boa nova” precisa ir além da mera denúncia. A retórica que condena a polarização política, ao mesmo tempo em que descreve a cidade com um vocabulário de “tristeza” e “constrangimento total” e acusa o governo de “máquina desgovernada” por “quase oito anos”, esbarra numa contradição incômoda. É o paradoxo que Chesterton, com sua perspicácia, bem apontaria: tentar se desvincular de um “polo” criando, por si, um novo centro de ataque. A crítica à gestão, por mais fundamentada que seja, necessita de um plano concreto que diferencie o vício ideológico da complexidade inerente à governança de um ente federado com o terceiro maior orçamento do país.

Um governo verdadeiramente moderno, como o pretendido, não pode se contentar com a superação de “planilhas de Excel” e a integração de sistemas de saúde, por mais urgentes que sejam. A honestidade intelectual exige propostas detalhadas sobre como se dará a “salvação” do BRB, como se quantificará e se reparará o prejuízo, e quais as soluções para a questão da Reag. O repertório da Doutrina Social, do solidarismo aos corpos intermediários, passando pela transparência curricular e pelos conselhos escola-família-comunidade (Cap. 7 do Corpus), oferece um manancial de soluções que são mais do que “boa gestão”: são a construção de uma ordem social justa, onde as virtudes do labor, da temperança e da responsabilidade guiam a ação pública.

Pio XII, ao diferenciar “povo” de “massa”, já nos ensinava que a sociedade não é um amontoado de indivíduos passivos, mas uma comunidade de pessoas ativas e conscientes. Esperar que o cidadão simplesmente “confie no governo” sem saber os meandros da gestão é reduzi-lo a um mero recipiente de serviços. A verdadeira transparência, portanto, não é apenas a exibição de dados, mas a capacidade de explicar os processos, envolver os atores sociais e garantir que as decisões sirvam ao destino comum da cidade, e não a interesses particularistas ou de grupos.

A aliança com nomes como Ciro Gomes, apresentada como uma alternativa aos “polos”, é mais um indício de que a busca pela não-polarização, no jargão político corrente, muitas vezes significa apenas a formação de um novo polo, com seus próprios alinhamentos e contraposições. A realeza social de Cristo, que Pio XI tanto exaltava, não se manifesta na fragmentação partidária, mas na edificação de uma vida pública onde a lei moral e o bem das al pessoas orientam todas as ações.

A Brasília que a pré-candidata descreve é, de fato, a Brasília que clama por redenção. Mas essa redenção não virá apenas pela troca de nomes ou pela retórica de um novo começo. Exige a profunda convicção de que a política é a arte de construir a cidade dos homens sob a égide da cidade de Deus. Um programa de governo deve ser um compromisso com a verdade dos fatos e com a concretude dos meios, sem a qual a esperança vira mera ilusão e a justiça, um ideal distante. A capital do Brasil merece um governo que construa com os pés no chão, as mãos no trabalho e o olhar fixo no que é devido a cada pessoa.

Fonte original: Correio Braziliense

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

Artigos Relacionados