O eco de uma voz forjada no cárcere ressoa agora na arena pública, oferecendo uma tese que, à primeira vista, seduz pela aparente simplicidade. Fernandinho Beira-Mar, após um quarto de século de reclusão e duas décadas longe da gestão político-criminal ativa em presídios federais, depõe que a expansão das facções criminosas no Brasil teria sido uma consequência paradoxal da própria existência desses estabelecimentos. É uma narrativa que, para o ouvinte desavisado, pode soar como uma revelação profunda vinda “de dentro”. Mas a realidade, tecida pela veracidade dos fatos, é sempre mais intrincada do que a conveniência de um depoimento interessado.
Não se pode negar a seriedade do desafio que as organizações criminosas impõem à ordem pública. A expansão do Comando Vermelho e do Primeiro Comando da Capital, com suas governanças territoriais armadas e a cumplicidade de advogados de ética duvidosa e agentes estatais corruptos, é uma chaga real, um flagelo que exige a ação firme e justa do Estado. As preocupações com a gestão de lideranças de alta periculosidade e a efetividade das políticas penitenciárias são, sem dúvida, legítimas e urgentes. No entanto, a tarefa do discernimento político e moral nos impõe a humildade de não aceitar uma meia-verdade como a verdade inteira.
A cronologia dos fatos, muitas vezes um incômodo para as narrativas construídas, desautoriza a tese de Beira-Mar. Os registros jornalísticos comprovam a presença interestadual do CV já no início dos anos 1990 em diversas regiões do Norte e Nordeste. O PCC, por sua vez, começou sua expansão para outros estados nos anos 2000. Ora, Beira-Mar só foi transferido para um presídio federal em 2006, após anos operando e consolidando seu “escritório do crime” de dentro das cadeias estaduais de Bangu. A capacidade de articulação e difusão das facções, portanto, precedeu e muito a generalização dos presídios federais como dispositivo central para o isolamento de suas lideranças. É, pois, um equívoco causal atribuir ao remédio, ainda que imperfeito, a origem da doença que ele tenta combater.
A afirmação de que os presídios federais teriam amplificado o poder faccionado choca-se com a própria lógica de seu desenho. O isolamento rigoroso imposto nessas unidades, que torna o líder mais vigiado do que comandante, é substancialmente diferente do regime de cadeias estaduais, onde chefes como Beira-Mar exerciam influência direta sobre suas redes. É uma peculiaridade da sanidade moderna que, por vezes, a loucura lógica se apresente como a mais profunda das verdades: culpar a contenção pelo crescimento, como se o muro da prisão desse asas ao crime. Essa narrativa, “autorizada nos códigos do CV”, é estrategicamente calibrada para desviar o foco da responsabilidade intrínseca das facções e da corrupção endêmica do Estado, preferindo lançar uma cortina de fumaça sobre a real dinâmica.
A verdadeira tragédia reside na corrosão da ordem moral pública, não na tentativa de restabelecê-la. A expansão do crime organizado, tal como Pio XII alertou sobre a massificação, é um fenômeno multifacetado, alimentado por fragilidades institucionais, rotas de tráfico, economias ilícitas regionais e, acima de tudo, pela corrupção sistêmica que precede qualquer política penitenciária reativa. Reduzir essa complexidade a um único fator, ignorando a vasta produção acadêmica e a realidade de outras regiões do país em favor de um “nativismo explicativo” conveniente, é um desserviço à inteligência e à justiça.
A comunicação responsável exige que não se confunda a voz do criminoso com a voz da verdade. Não há atalho para a paz e a segurança que passe pela aceitação ingênua de narrativas que, sob o pretexto de “revelar”, buscam antes manipular. A tarefa de discernir a verdade em meio à turbulência de interesses e ao barulho da propaganda criminosa é um dever cívico e moral inarredável. A justiça, afinal, é a ordem que se estabelece não pelas ilusões fabricadas, mas pela reta razão que desvela os fatos.
Fonte original: Brasil 247
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.