Uma voz emerge das profundezas de um cárcere de segurança máxima, ecoando por canais de comunicação com a pretensão de desvendar os mistérios da criminalidade organizada. Fernandinho Beira-Mar, prisioneiro há um quarto de século, tece uma narrativa que atribui aos presídios federais a estranha virtude de nacionalizar facções como CV e PCC. A sedução de tal “testemunho verídico” é forte, pois vem de quem esteve no cerne da desordem. Contudo, como nos alerta o Magistério sobre a comunicação responsável e a ordem moral pública, a verdade não é um mero ponto de vista, nem a experiência individual, por mais intensa que seja, substitui a luz dos fatos e o rigor do discernimento.
Os fatos, no entanto, traçam uma cronologia menos conveniente para a tese do cárcere. O Comando Vermelho, nascido nos anos 1980, já demonstrava presença interestadual no início da década de 1990, muito antes da federalização maciça de suas lideranças. O Primeiro Comando da Capital, surgido nos anos 1990, seguiu um rastro similar a partir dos anos 2000. Beira-Mar, em seus dias de liberdade e influência, operava como um verdadeiro arquiteto da translocalidade, financiando, articulando alianças em regiões estratégicas de rotas de drogas e armas, pagando propinas e mediando conflitos nas fronteiras do Brasil com a Colômbia, Paraguai e Bolívia. Sua função era, à época, a de um nó vital em uma rede complexa, não a de um comandante isolado por muros intransponíveis. Seu depoimento atual, colhido após duas décadas afastado da gestão político-criminal, traz consigo o véu de uma “meia-verdade”, um “romantismo autobiográfico” que serve a interesses pessoais, financeiros e políticos, buscando resgatar um prestígio esmaecido, e que, em linguagem de facção, é autorizado por não comprometer o esquema.
A aceitação acrítica desse tipo de narrativa, sem o filtro da veracidade e da honestidade intelectual, transforma o olhar de um ator interessado em uma armadilha retórica que desorienta o debate público. Há um risco real de que analistas, tomados por um viés de confirmação ou por um fascínio pelo “saber nativo” do criminoso, elevem uma manipulação a categoria de verdade sociológica. Tal postura, ao invés de iluminar a complexidade do fenômeno, o obscurece, desviando a atenção dos reais motores da expansão criminosa: a translocalidade das rotas, a corrupção endêmica em setores do Estado, a circulação de advogados de ética duvidosa e a resiliência adaptativa das redes.
A realidade mais acurada aponta para a “governança criminal nodal”, um modelo organizacional em que unidades funcionalmente especializadas (nódulos) operam com autonomia decisória variável, conectadas por interfaces seletivas e relações assimétricas de conhecimento. Cada nódulo detém um saber operacional específico e é mantido em uma “ignorância calibrada” sobre o funcionamento integral da rede. Não há um único centro de comando identificável, nem um contrato explícito de associação que defina a totalidade das conexões. Esta estrutura difusa e resiliente é intrinsecamente avessa à centralização que um presídio federal de segurança máxima, com sua intenção de isolamento, poderia paradoxalmente promover como um “escritório do crime”. Lideranças ali custodiadas são, de fato, “mais vigiadas do que comandam”, e seu entorno visa garantir que não quebrem as regras do esquema, mantendo-as caladas.
No entanto, a honestidade intelectual exige que se reconheça uma preocupação legítima levantada pela objeção: seria totalmente implausível que a proximidade forçada de múltiplas lideranças de alto escalão, mesmo que isoladas e vigiadas, não gere algum intercâmbio tácito de informações, padrões de conduta ou até mesmo reconfigurações sutis de normas que, em longo prazo, possam fortalecer a resiliência da rede, ainda que não seu comando direto? Não se trata de incubar a expansão, mas de fomentar a adaptação. A vasta experiência de um líder como Beira-Mar, ainda que “desatualizada” na gestão diária, pode conter insights sobre as lógicas estruturais e adaptativas do crime que não devem ser sumariamente descartados. Deslegitimar qualquer forma de inteligência estratégica vinda do terreno, classificando-a como mera manipulação, é um reducionismo metodológico que pode nos privar de compreender nuances importantes sobre a capacidade de auto-organização e reconfiguração de tais redes.
A verdadeira questão, portanto, não é se os presídios federais causaram a nacionalização das facções, o que os fatos refutam, mas como a estrutura da “governança criminal nodal” se adapta à tentativa de contenção e isolamento. O papel primordial dos presídios federais é o de isolar o indivíduo perigoso da capacidade de comando, e nisso, em grande medida, são eficazes. Mas a justiça exige que a inteligência de Estado não se contente apenas em isolar, mas que compreenda a fundo a flexibilidade e a persistência dessas redes. A luta contra o crime organizado é um imperativo de justiça para a ordem moral pública, para a segurança do povo e para a integridade do Estado, que não pode ser minada pela corrupção interna ou pela aceitação ingênua de narrativas interessadas. Exige uma veracidade intransigente e uma compreensão complexa das sombras que tentam sufocar a luz da lei.
O desafio é decifrar a rede invisível da desordem sem se deixar iludir pelas vozes que, de dentro da cela, buscam tecer outra realidade.
Fonte original: Brasil 247
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.