A nação alemã, locomotiva econômica e pilar da União Europeia, vê seu timoneiro, Friedrich Merz, completar o primeiro ano à frente do governo em meio a uma tempestade de impopularidade e paralisia. O que se desenha não é apenas um retrato de insatisfação política, mas o rascunho de uma crise mais profunda sobre a arte de governar, a serviço do bem comum, em tempos de vertiginosas mudanças. Merz, um veterano conservador com a franqueza auto-proclamada de quem crê em seus próprios termos, vê sua coalizão com o SPD esgarçar-se sob o peso de reformas travadas e uma percepção pública de ineficácia, com a satisfação popular despencando de 38% para meros 11% em um ano.
É justo reconhecer que os desafios são hercúleos: uma economia global volátil, a guerra na Ucrânia, a crise energética e a ascensão de populismos que capturam o descontentamento. A tese de Merz, que sua intransigência e comunicação direta seriam, a longo prazo, virtudes a conquistar a adesão pública, choca-se com a realidade de um eleitorado cada vez mais descrente. O crescimento vertiginoso da AfD, uma sigla de ultradireita, ainda que sem soluções econômicas concretas na visão da maioria, é o termômetro de uma febre que as políticas governamentais não conseguem baixar. A insatisfação popular não é mera “sensibilidade”, mas um grito por respostas a problemas reais que a paralisia política agrava.
Aqui, a sabedoria social-cristã nos adverte sobre a distinção entre o povo e a massa, como ensinou Pio XII. Um líder político não governa uma massa amorfa de indivíduos, mas um povo, que é uma comunidade orgânica, viva, com laços sociais e espirituais que devem ser nutridos pela ação pública. A “franqueza” do governante, se não temperada por um governo sábio e uma comunicação responsável, pode desarticular essa comunidade, transformando a legítima divergência em polarização estéril e o diálogo em ruído. Merz, ao afirmar que não pretende mudar seu modo de ser, mesmo percebendo que “causa desconforto em um público extremamente sensível”, demonstra uma desconexão preocupante entre a virtude da veracidade (que deveria servir à verdade para o bem do outro) e a prudência política, que exige discernimento para adaptar a ação e a palavra ao fim superior do serviço público.
A falha em alcançar consenso para as reformas prometidas, as diferenças programáticas com o SPD e a incapacidade de oferecer uma narrativa econômica convincente abalam a própria estrutura da subsidiariedade e da solidariedade. Quando o poder central se mostra inerte ou dividido, os corpos intermediários – empresas, famílias, comunidades – sofrem, e o elo de cooperação orgânica se rompe. A economia alemã, que sustenta tantas vidas, precisa de direção clara e de uma visão que vá além da retórica de que “há progressos significativos” enquanto a maioria dos eleitores manifesta profunda insatisfação. A experiência de Merz no mercado financeiro, por mais bem-sucedida que seja, não o isenta da necessidade de enxergar as realidades sociais com um olhar de justiça, ordenando os bens da sociedade para o sustento de todos.
Mesmo no palco internacional, a postura de Merz em relação a Donald Trump, ao conceder publicamente razão sobre as tarifas, levanta questões sobre a magnanimidade da liderança alemã. A defesa dos interesses da União Europeia exige uma voz firme e unificada, não a desarticulação de posições que podem enfraquecer a barganha conjunta. Uma visão que não consegue articular a casa de dentro com as relações externas, com uma clara percepção da ordem dos bens e dos riscos envolvidos, é um sintoma da mesma imprudência que corrói a confiança interna.
Ao fim e ao cabo, a questão não é a força ou a fraqueza pessoal do primeiro-ministro, mas a eficácia de sua liderança para edificar uma comunidade política robusta e capaz de enfrentar as intempéries. A “franqueza” de um governante não pode ser um pretexto para a rigidez que impede a ação, nem a mera projeção de uma personalidade no espaço público. O que a Alemanha espera de seu líder é a capacidade de unificar, de conciliar e de agir com juízo reto para que a casa comum possa resistir à ventania, não um discurso que se petrifica em sua própria inabalabilidade.
Fonte original: Folha de S.Paulo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.