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Acordo Lula-Alcolumbre: Ética e o Preço da Governabilidade

Lula e Alcolumbre buscam acordo. O artigo revela o custo ético de `passar a régua` em suspeitas do Banco Master, minando a confiança pública na governabilidade.

🟢 Análise

A política, muitas vezes, é seduzida pela tentação de “passar a régua”, como se a mera declaração de um novo ciclo pudesse apagar as manchas de um passado recente ou as sombras de um presente incômodo. Mas a vida pública, ao contrário de um livro-caixa, não admite quitações automáticas quando os débitos são morais e as suspeitas persistem. A busca por uma trégua entre o governo e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, após derrotas legislativas, revela não a saúde restaurada de um diálogo, mas a perigosa barganha de uma governabilidade que se arrisca a sacrificar a retidão.

Os fatos são claros: o Senado impôs reveses significativos ao Executivo, derrubando a indicação de Jorge Messias ao Supremo e vetando a dosimetria da pena. Alcolumbre, em resposta, manifesta o desejo de “passar a régua” com o presidente Lula, que, por sua vez, ensaiou um “vida que segue” e enviou seus emissários para recompor a ponte. Essa coreografia de reaproximação visa a pauta legislativa urgente, como as PECs do Suas e da Segurança Pública, e a regulamentação de minerais críticos. No entanto, o palco dessa conciliação é turvo, e seus alicerces, frágeis.

É neste ponto que a preocupação legítima emerge com força: essa aparente reconciliação não se dá em um vácuo ético. O mesmo Davi Alcolumbre que agora é peça-chave para a aprovação da agenda governamental é o político que se reuniu com Daniel Vorcaro, ex-banqueiro pivô do escândalo do Banco Master, em sua residência oficial no Senado. É o mesmo líder cujo afilhado político, Jocildo Silva Lemos, comandava o Banco Master, investigado pela Polícia Federal após a aplicação de R$ 400 milhões pela Amprev (Amapá Previdência) em títulos de alto risco. Ignorar esses elos na pressa por um acordo é fazer da governabilidade um pretexto para a ambiguidade moral.

A Doutrina Social da Igreja, particularmente na esteira de Leão XIII e Pio XII, insiste na primazia da ordem moral pública e na função social da propriedade e das associações. Uma administração previdenciária, como a Amprev, que aplica recursos em títulos de risco duvidoso e envolve figuras ligadas ao poder legislativo, contraria a justiça distributiva e a transparência que devem reger o trato da coisa pública. A sociedade não é uma massa amorfa a ser manipulada por acordos de cúpula, mas um povo, cuja confiança nas instituições é um bem inestimável. A Justiça, virtude cardeal, exige que os responsáveis por denúncias sérias sejam devidamente investigados, e que a busca pelo bem comum não se confunda com uma espécie de anistia política tácita. O que parece ser a sanidade da política, um Chesterton observaria com ironia, pode ser na verdade a loucura de tentar arrumar a casa empurrando a sujeira para debaixo do tapete.

A assimetria de poder é gritante. O governo, em sua fragilidade legislativa, encontra-se dependente da “boa vontade” de um ator sob escrutínio para fazer avançar sua pauta. Essa dependência inverte a lógica da ética pública, onde a integridade deveria ser pré-requisito para o exercício pleno do poder. A tentativa do governo de justificar as derrotas anteriores culpando adversários e o Supremo, enquanto busca a conciliação com o presidente do Senado, soa contraditória e revela uma preocupante falta de Honestidade. Não se pode criticar a suposta conspiração de um lado e, ao mesmo tempo, buscar a complacência do outro, sem que a própria narrativa se esvaiça em cinismo.

Em um país onde a confiança nas instituições já é um artigo de luxo, a “passagem da régua” não pode ser um atalho para a conveniência política. A verdadeira estabilidade de uma nação não reside na capacidade de seus líderes em forjar tréguas pragmáticas com quem se encontra sob grave suspeita, mas na firmeza em zelar pela integridade do corpo social. O bem da cidade exige que a busca por leis e orçamentos se dê sobre alicerces de probidade e não sobre o terreno movediço de acordos que podem cheirar a impunidade. O preço da governabilidade não pode ser a desmoralização das virtudes cívicas e a degradação da confiança pública.

Fonte original: Bem Paraná

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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