A política, em sua essência mais elevada, deveria ser o alicerce de uma vida pública ordenada, onde o bem da comunidade transcende os interesses particulares. Contudo, a cena política no Acre, tal como descrita, apresenta um espetáculo onde a linha entre o serviço ao Estado e a estratégia de campanha parece perigosamente borrada, em detrimento da justiça e da veracidade que devem nortear a ação governamental.
A definição de uma “linha de frente” de campanha que inclui o chefe de gabinete civil e ex-secretários, ao lado do próprio marido da governadora, configura um movimento que, embora busque coesão, flerta com a instrumentalização do aparelho estatal. A inteligência doutrinária da Igreja, em especial Pio XI, sempre advertiu contra a estatolatria, o culto ao Estado que o transforma de meio a fim, e, por extensão, a sua redução a um mero instrumento de ambições partidárias ou familiares. A subsidiariedade, princípio basilar da Doutrina Social, exige que as instâncias superiores não usurpem as funções das inferiores, e menos ainda que o Estado se veja sequestrado por um círculo restrito, perdendo sua capacidade de servir imparcialmente a todos.
Não menos preocupante é a opacidade que permeia a narrativa política. A constante referência a “fontes não nomeadas” e a “personagens importantes” nas análises e previsões eleitorais, aliada a uma linguagem que mistura fato com “juízos de valor” e “conselhos políticos”, corrói a veracidade necessária ao debate público. Quando a informação se torna uma ferramenta de manipulação, e não um espumo da realidade, a capacidade do cidadão de formar um juízo reto é comprometida. A personalização excessiva das candidaturas, com a esposa do ex-prefeito sendo apresentada como “sua candidata”, reforça a ideia de uma política de lealdades pessoais e dinásticas, em vez de um embate de ideias e projetos para o Acre.
Há uma sanidade elementar que precisa ser resgatada na arena pública. Chesterton, em seu estilo único, apontava o paradoxo de sistemas que, ao buscarem uma lógica interna perfeita, acabam por perder o contato com a realidade mais simples e evidente. A “lógica” de uma máquina política que se alimenta de si mesma, promovendo a continuidade e a lealdade familiar como virtudes supremas, pode parecer eficiente a curto prazo, mas é uma loucura à luz da verdadeira saúde cívica. O esforço para “resolver greves” ou “fiscalizar obras” de forma notadamente pré-eleitoral, por mais que traga alívio momentâneo, levanta a incômoda questão sobre o real motor dessas ações: o bem da cidade ou o calendário eleitoral?
A ordem dos bens é clara: o interesse público precede o interesse partidário ou familiar. Quando a máquina do Estado e a máquina de campanha se confundem, o eleitorado, reduzido a uma “massa” passiva de votos a serem contados, perde sua voz como “povo” ativo e demandante de justiça. Novas lideranças e a oposição qualificada são sufocadas, e a assimetria de poder se consolida, criando uma estrutura oligárquica que dificulta a ascensão de quem não pertence ao círculo. A vitalidade de uma sociedade, como um organismo vivo, depende da multiplicidade de seus “corpos intermediários” e da justa representação de suas diversas vozes.
O verdadeiro desafio para o Acre não se resume a “costurar chapas” ou a “contar votos”, mas a construir um futuro que transcenda os arranjos de bastidores. É preciso que o debate seja elevado para as questões programáticas e estruturais que afetam o estado, com planos concretos para o desenvolvimento econômico, social e ambiental, comunicados com honestidade e transparência. A justiça não se contenta com a mera aparência de ordem; ela exige que cada ação do poder público seja intrinsecamente ordenada ao bem comum, distinguindo o que é dever permanente do que é tática passageira.
A fortaleza de uma comunidade se mede não pela força de suas dinastias políticas, mas pela integridade de suas instituições. É preciso, portanto, que a vida pública no Acre reencontre a via da veracidade e da justiça, para que a confiança dos cidadãos seja cimentada em fatos inegáveis e intenções límpidas, e não em sombras e especulações.
Fonte original: ac24horas.com – Notícias do Acre
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.