Um laboratório, por definição, isola variáveis para observá-las em condições controladas. Mas a sociedade capixaba, como qualquer organismo vivo, é um entrelaçamento complexo de histórias, famílias, terras e esperanças, onde variáveis humanas e divinas jamais se deixam confinar em placas de Petri. A ideia de que o Espírito Santo se tornou um “laboratório da política neoliberal” brasileira não deve ser interpretada como a chancela de um sucesso inevitável, mas sim como o convite a um exame mais profundo: o que se testou, quem colheu os frutos e que sementes, porventura amargas, foram lançadas ao solo?
É inegável, e a própria tese crítica reconhece, que o estado assistiu a avanços significativos na modernização de sua economia e máquina estatal, e até mesmo a uma notável redução da pobreza absoluta e relativa ao longo de mais de duas décadas. Isso, de fato, não pode ser ignorado, pois representa uma melhora concreta na vida de muitos. Contudo, a questão fundamental reside em discernir se esses ganhos, por mais reais que sejam, foram o resultado de uma ordem justa e participativa, ou de uma engenharia social imposta por uma “zona franca dos poderes de mercado” que, sob a retórica da governança, subordina a vida comum aos desígnios financeiros e empresariais. A estabilidade fiscal, tão necessária para a boa administração e para evitar o descontrole das contas públicas da década de 90, pode, no excesso, tornar-se um fim em si, descolada de seu propósito maior: o florescimento integral da pessoa humana.
Quando se fala em “hub do Capital” ou em concessões de Parques Estaduais via Peduc e mega-projetos como o PARKLOG ES, o Polemista Católico precisa indagar pela justiça distributiva e pela subsidiariedade. Quem decide o destino dessas vastas porções do território e seus recursos naturais? Se, como alegam ambientalistas e movimentos sociais, as comunidades locais – guardiãs primeiras daquela terra e de seu sustento – veem suas vozes “atropeladas, ridicularizadas e minimizadas”, então há um desrespeito à ordem natural e social. A propriedade, ensina Leão XIII, inclusive a pública, tem uma função social inalienável que não se resume à mera rentabilidade de curto prazo, mas serve ao sustento da vida e à promoção do bem da cidade.
A retórica que brande o “terrorismo econômico” ou categoriza toda crítica como “fake news” é, em si, um desserviço à veracidade pública. Ela silencia o debate, obscurece a análise e impede que o povo, e não uma “massa” atomizada por interesses alheios – conceito sobre o qual Pio XII tão bem alertava – participe verdadeiramente do governo de sua própria casa. Chesterton, com sua sanidade proverbial, denunciaria a loucura de uma lógica que, de tão perfeita em seus cálculos abstratos, se torna cega às realidades mais concretas: o verde das matas, o pranto dos afetados, a dignidade da deliberação comum. A “austeridade seletiva”, denunciada por economistas críticos, revela que a disciplina fiscal, por vezes, é mais imposta aos vulneráveis do que aos grandes poderes.
O crescimento econômico, quando desacompanhado de uma visão integral do ser humano e do destino comum, vira uma corrida sem alma. A Doutrina Social da Igreja sempre advogou que o desenvolvimento não é só material, mas moral, cultural e espiritual. A preocupação legítima com a “luta contra o custo Brasil” não pode se traduzir em um “paraíso fiscal do estado mínimo” que esvazia a capacidade reguladora do Estado em favor de interesses privados, especialmente quando estes interesses ameaçam a integridade da criação e a coesão social. O equilíbrio entre o dinamismo econômico e a proteção do patrimônio ambiental e social é uma exigência ética, não uma opção ideológica.
A verdadeira força de um estado não reside em sua capacidade de atrair fluxos financeiros, mas em sua fibra moral: a capacidade de garantir uma ordem onde a justiça prevalece, onde a voz do pequeno é ouvida e onde a riqueza gerada serve ao florescimento integral de todos. O Espírito Santo, para além de qualquer rótulo de “laboratório”, deve buscar ser um campo fértil onde as sementes da justiça, da verdade e da participação floresçam, regadas pela caridade e pela esperança, para que a colheita seja abundante e verdadeiramente partilhada, não apenas por alguns, mas por todo o seu povo.
Fonte original: GGN
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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