O canteiro de obras de uma nação, para que se erga em solidez e perdure, exige mais do que a simples vontade de erguer paredes. Pede um projeto assentado em princípios firmes, com cálculos transparentes e uma fundação que suporte os ventos da contingência e as chuvas da discórdia. Do contrário, o que se constrói corre o risco de ser um mero andaime retórico, imponente na promessa, mas frágil na substância.
A inauguração do campus do Instituto Federal em Sorocaba, com seus R$ 20 milhões de investimento, é, em princípio, uma notícia bem-vinda. A ampliação do acesso à educação técnica e superior é um imperativo para o desenvolvimento humano e econômico. Contudo, o que se ouviu no palanque presidencial, misturando inauguração com proselitismo e simplificações drásticas, revela uma abordagem que mais confunde do que esclarece, mais agita do que pacifica, distanciando-se do discernimento sábio que a gestão da coisa pública exige.
A retórica presidencial, ao invocar a “descendência com Lampião” para ameaçar um líder estrangeiro ou ao classificar opositores como “fascistas” em um evento educacional, dilui o caráter institucional da solenidade em mera disputa eleitoral. É o tipo de desvio que Chesterton, com sua argúcia paradoxal, criticaria como a sanidade virando loucura lógica: a defesa de uma causa nobre (a educação) é maculada por expedientes que fragmentam o tecido social e envilecem o debate público, quando este deveria ser um campo de veracidade e magnanimidade. Não se constrói um futuro para a juventude por meio da polarização agressiva, mas pela elevação do espírito e pela clareza dos propósitos.
A comparação entre o custo anual de um estudante em um Instituto Federal (R$ 16 mil) e o de um prisioneiro em presídios federais (R$ 40 mil) ou estaduais (R$ 35 mil) é particularmente problemática. Embora a intenção de sublinhar a importância da educação seja louvável — e de fato é mais eficaz investir na formação do que na contenção da criminalidade —, a analogia peca por um reducionismo perigoso. Reduzir o sistema prisional a um mero “gasto com bandido” ignora sua complexidade, suas funções legais de segurança, contenção e, idealmente, reabilitação. A justiça, aqui, exige que se compreenda a sociedade em sua totalidade, com seus dilemas e estruturas de contenção, e não apenas nas soluções que convêm ao discurso político. Não se trata de uma escolha simples entre investir em “bandidos” ou em “estudantes”, mas de uma visão integral que prevê tanto a prevenção quanto a justa punição e a reabilitação, cada uma com seus próprios custos e imperativos morais. O Estado tem o dever de garantir a segurança pública e a ordem legal, mesmo enquanto investe prioritariamente na prevenção através da educação.
A proposta de que a expansão dos Institutos Federais seja impulsionada por emendas parlamentares individuais, embora possa acelerar construções pontuais, introduz um risco sistêmico à justiça distributiva e ao planejamento estratégico. A educação é um bem nacional, cuja capilaridade e qualidade devem ser pautadas por critérios técnicos de necessidade regional, demografia e vocação local, e não por interesses eleitorais ou pelo poder de barganha de legisladores isolados. O princípio da subsidiariedade nos recorda que o Estado não deve substituir o que pode ser feito pelos corpos intermediários, mas também que sua função coordenadora é essencial para assegurar que as políticas públicas sirvam ao bem de toda a cidade, e não apenas a bolsões de influência política. A dependência de emendas pode criar um mosaico de oportunidades desiguais, comprometendo a visão de uma rede educacional robusta e equânime para todos os cidadãos.
A verdadeira edificação de uma nação se dá não apenas na quantidade de Institutos inaugurados, mas na qualidade e na honestidade de seus alicerces morais e administrativos. Exige uma justiça que distribua recursos de forma equitativa, uma veracidade que informe o debate público sem simplificações ideológicas, e uma magnanimidade que veja o adversário como parte do diálogo, e não como inimigo a ser deslegitimado. O futuro que queremos construir para os estudantes e para o país não se sustenta sobre a areia movediça da retórica polarizadora, mas sobre a rocha inabalável de um compromisso intransigente com a verdade e com o bem da ordem justa da cidade.
Fonte original: Diário do Centro do Mundo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.