O papel-moeda, quando falsificado, não apenas engana: ele corrói a própria confiança no valor do dinheiro, minando as bases da troca e da estabilidade. De modo análogo, a “guerra memética” que se desenrola entre Irã e Estados Unidos nas redes sociais não é uma simples disputa de imagens digitais; é uma corrosão da veracidade pública, uma desqualificação do discurso que, sob o pretexto do humor, enfraquece a dignidade intrínseca da comunicação política e diplomática. Enquanto os EUA, sob a égide de Donald Trump, enveredam por um tom épico e auto-celebratório, com imagens que o mostram em vestes sacras – numa confusão entre o sagrado e o profano que nem a história reconheceria –, o Irã responde com ridicularização, retratando o líder americano como brinquedo de outros ou associado a figuras ignóbeis.
A facilidade com que as redes sociais disseminam esses conteúdos faz crer que a mensagem, por ser viral, é por isso eficaz. Nick Cull, professor de comunicação, bem observa que a propaganda, desde as canções satíricas sobre Hitler nos anos 1940, serve para reafirmar a própria base ou desmoralizar o inimigo. Contudo, essa analogia ignora um abismo moral: a “guerra memética” moderna frequentemente prescinde da verdade e do argumento em favor da provocação e do “trolling” global. A embaixada iraniana no Tadjiquistão pode ter acumulado milhões de impressões em um vídeo que mostra Jesus atacando Trump, mas a viralidade não se confunde com o impacto estratégico real, nem com a adesão de consciências. É um ruído digital que simula ação, ao invés de influenciar a realidade de forma construtiva.
A Doutrina Social da Igreja, particularmente com Pio XII em suas reflexões sobre a distinção entre “povo” e “massa”, adverte sobre os perigos de uma comunicação que massifica, que apela a sentimentos primários em vez de à razão e ao discernimento. Quando Estados, cuja autoridade deriva da ordenação ao bem comum, se engajam em propaganda de ridicularização e desumanização, eles abdicam de seu dever de elevar o discurso público. Desumanizar o oponente, ainda que em tom de sátira, não é um exercício de fortaleza, mas uma falta de temperança na expressão, uma violação da digneza que se deve a toda pessoa, mesmo em conflito. A verdade é um bem que transcende as disputas do dia; o desprezo por ela, mesmo que jocoso, mina a fundação da confiança necessária para qualquer forma de convivência, seja interna ou internacional.
O foco nessa “guerra memética” acaba por desviar a atenção das preocupações legítimas e das dinâmicas geopolíticas subjacentes que a Antítese tão bem aponta. Há um risco real de trivialização de conflitos sérios, de desinformação e de normalização de linguagens agressivas em canais oficiais. A assimetria de poder entre os contendores é vasta e complexa, e não pode ser resumida a uma briga de “Davi versus Golias” em um feed de notícias. A mera presença constante de publicações iranianas, por mais que contradiga a narrativa de “obliteração” de Trump, não constrói um caminho para a paz ou para uma diplomacia mais eficaz.
Uma legítima guerra cultural, como aquela que busca reafirmar valores e verdades, usa o humor com inteligência e sem crueldade, como leciona nosso repertório interno. O que se observa, porém, é o aviltamento do meio e da mensagem. A questão não é proibir a sátira, mas exigir de atores estatais uma comunicação que preserve a veracidade e a dignidade intrínseca do ser humano, ainda que adversário. O uso de figuras sagradas para fins de manipulação ou desqualificação política não apenas transgride a reta razão, mas ofende a piedade.
O artifício do meme cruel, ao cobrir a realidade com uma cortina de fumaça digital, não apenas desonra o oponente: ele envenena a própria atmosfera da verdade, onde a paz e a justiça poderiam um dia respirar.
Fonte original: Folha de S.Paulo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.