A construção de um ser humano, assim como a edificação de uma casa, começa pelos alicerces. É no lar, na família, que as primeiras paredes são erguidas, os primeiros quartos desenhados e os primeiros valores, por imitação e afeto, são fixados. A escola, com seus telhados e portas amplas, é um espaço vital de ampliação e aprimoramento, mas sua função é secundária e complementar à da família, jamais uma fundação alternativa.
O recente debate promovido pelo Correio Braziliense sobre o papel central da escola no enfrentamento à violência de gênero levanta uma questão inegavelmente urgente: a necessidade de uma cultura de proteção às mulheres e a eliminação da violência. Ninguém discute a gravidade do problema nem a boa intenção de querer combatê-lo. É justo e moral que a sociedade se mobilize contra tamanha iniquidade. As vozes que clamam por prevenção, por protocolos de acolhimento e por formação contínua dos educadores são, de fato, um sinal de que a consciência sobre o flagelo da violência tem crescido. A escola, sem dúvida, pode e deve ser um lugar de observação, de denúncia responsável e de encaminhamento, um porto seguro para identificar quem precisa de ajuda.
Contudo, há uma linha tênue, facilmente cruzável, entre a colaboração virtuosa e a sobrecarga usurpadora. Quando se propõe que a escola se torne o epicentro da “desconstrução de conceitos tradicionais de masculinidade”, ou que assuma a frente na reeducação de valores culturais que a família supostamente “ensina o contrário”, acende-se um alerta para a reta ordem das coisas. O Magistério da Igreja, em especial desde Leão XIII, tem sido claro ao afirmar que a família é a sociedade primeira e natural, anterior ao Estado e, por conseguinte, à escola. O direito e o dever de educar, em sentido pleno e primário, pertencem aos pais. A escola é um auxiliar, jamais um substituto.
É uma questão de justiça institucional reconhecer as esferas de competência. A Doutrina Social da Igreja, particularmente através do princípio da subsidiariedade, nos ensina que o que pode ser realizado por uma instância menor e mais próxima não deve ser avocada por uma maior. A formação dos valores morais e a transmissão de uma visão de mundo, por mais que possam ser apoiadas e contextualizadas pela escola, são, em sua essência, tarefas do lar. Delegar à escola a reengenharia de valores culturais profundos, a ponto de suplantar ou contradizer a autoridade moral da família, é um gesto de desconfiança imprudente, que ignora a capacidade do núcleo familiar de moldar a consciência e o caráter.
A ingenuidade, ou talvez a soberba tecnocrática, de crer que “se essa temática for integrada ao ambiente escolar, a mudança ocorrerá em um período significativamente menor” subestima a complexidade da condição humana e a resiliência das culturas. É como querer podar uma árvore pelas folhas, quando o problema reside nas raízes. A violência de gênero não é um mero problema de falta de informação ou “conceitos tradicionais” a serem desconstruídos por um currículo; ela brota de desordens mais profundas do coração humano, do egoísmo, da fraqueza moral e da ausência de virtudes. Reduzir um problema tão multifacetado a um mero “programa escolar” é um reducionismo perigoso, que pode gerar mais polarização do que solução, alienando pais e comunidades que não veem na escola um palco para a doutrinação ideológica.
Como diria um certo G. K. Chesterton, há uma sanidade que reside em reconhecer as coisas pelo que são e os papéis pelo que devem ser. A escola é para ensinar, sim, mas também para reforçar o que é bom, verdadeiro e belo. Mas se a escola se transforma no laboratório principal de engenharia social para “desconstruir” identidades e valores familiares, corre-se o risco de perder a cabeça e de substituir a tradição viva por uma “loucura lógica” que esvazia as instituições de sua finalidade própria, gerando desorientação e não ordem. As narrativas e histórias devem edificar, não desorientar.
A solução para a violência contra a mulher exige um esforço articulado, que respeite as fronteiras institucionais. Significa fortalecer os sistemas de justiça e proteção (juizados, delegacias especializadas), sim, mas também investir na formação integral da pessoa, desde o berço. A escola, nesse contexto, atua como um parceiro valioso, com transparência curricular e conselhos escola-família-comunidade. Ela pode ensinar a veracidade na comunicação, a responsabilidade pessoal e o respeito mútuo, sem usurpar o protagonismo da família na educação da fé e da moral. Os protocolos de “acolher, ouvir, registrar e encaminhar” são essenciais, mas devem ser acompanhados de uma estrutura de apoio externo robusta, que inclua profissionais especializados, para os quais os educadores possam referir com segurança.
É preciso, portanto, que a escola se concentre em sua nobre vocação, sem pretender ser a única ou a principal pedra angular de toda a ordem social. Os alicerces da civilidade são lançados no lar, e a escola, como um grande portal, deve abrir caminhos de conhecimento, não fechar as portas da casa.
Fonte original: Correio Braziliense
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.