A imagem de uma criança brasileira, com os olhos fixos na lousa embaçada ou os ouvidos mal captando a voz do professor, é um convite mudo ao desespero. Não se trata apenas de uma metáfora: a pesquisa da Universidade de Stanford, ao alertar que um a cada dez alunos convive com “deficiências invisíveis” – como baixa visão ou audição – que escapam ao Censo Escolar, lança luz sobre uma realidade que exige atenção imediata. É inegável que um obstáculo físico, por mais sutil que seja, pode erguer uma barreira intransponível entre o aluno e o conhecimento. Identificar e remediar essas condições é um imperativo de caridade e, antes disso, de elementar justiça para com os mais vulneráveis em nossas salas de aula.
Entretanto, é preciso que a virtude da humildade intelectual nos blinde contra o canto de sereia das soluções simplistas. A complexa teia da defasagem educacional brasileira, com seus “sete anos de atraso” que aprisionam parcela significativa dos alunos, não pode ser desfeita por um único fio. Embora a correção de problemas sensoriais seja crucial, a tentação de reduzir a crise educacional a um catálogo de “deficiências invisíveis” é um atalho perigoso. Ignora-se, assim, a vastidão de outras causas estruturais: a pobreza que assola milhões de lares, a qualidade frequentemente precária da formação docente, a ausência de infraestrutura básica em muitas escolas e a insuficiência de métodos pedagógicos que engajem a diversidade real do alunado. O Censo Escolar, afinal, já aponta que a maioria esmagadora das deficiências diagnosticadas reside em campos mais complexos, como a deficiência intelectual e o autismo, cujas necessidades transcendem em muito um par de óculos ou um aparelho auditivo.
A proposta de que “as escolas precisam encontrar melhores mecanismos para diagnosticar e apoiar os alunos” e de que “não é possível que as escolas no Brasil não façam exames de vista e de audição todos os anos” soa bem-intencionada, mas esbarra na reta razão e no princípio de subsidiariedade. Não se pode sobrecarregar a escola com um papel que não é o seu primário. Sua vocação é pedagógica, não clínica. A família é o primeiro corpo intermediário responsável pela saúde de seus filhos, seguida pelos sistemas de saúde locais. A escola, sim, deve ser o braço que identifica, encaminha e articula, mas não o consultório médico em si. A responsabilidade por triagens em massa e pelo fornecimento de óculos ou aparelhos auditivos para potencialmente 10% da população estudantil, o que representaria milhões de pessoas, recai primariamente sobre um sistema de saúde público já fragilizado. Exigir que ele absorva tal demanda sem um plano robusto de financiamento, infraestrutura e recursos humanos é uma fantasia administrativa que desvia o foco do que é factível e do que é justo.
A Doutrina Social da Igreja, especialmente através da crítica de Pio XI à estatolatria e de seu apelo à subsidiariedade, adverte contra a tentação de concentrar no Estado centralizado ou em uma única instituição a solução para problemas multifacetados. Fortalecer os “corpos intermediários” – a família, os postos de saúde da comunidade, as associações de pais e mestres – é o caminho para uma resposta orgânica e verdadeiramente eficaz. O Programa Saúde na Escola (PSE), mencionado pelo MEC, é a instância adequada para essa coordenação com o Ministério da Saúde, mas precisa ser robustecido, e não substituído por uma delegação imprudente de competências à estrutura escolar.
Assim, o grito da pesquisa de Stanford é válido como alerta, mas não como mapa completo para a cura. A verdadeira solução exige uma abordagem que articule saúde e educação, sim, mas respeitando as vocações de cada esfera e as responsabilidades de cada corpo social. É preciso que a atenção às deficiências visíveis e invisíveis caminhe lado a lado com um investimento sério na qualidade do ensino, na formação de professores, na infraestrutura escolar e no combate à pobreza. Sem isso, a simples correção de um problema sensorial será apenas um paliativo, incapaz de erguer uma geração inteira da profunda defasagem educacional em que se encontra. A luta por uma educação mais justa e inclusiva passa por reconhecer a complexidade do terreno, e não por buscar atalhos que, por mais bem-intencionados que sejam, acabam por desviar o olhar do que é fundamental.
A educação de uma nação é como a construção de um edifício: o alicerce é crucial, mas a solidez depende de cada viga, de cada tijolo, e da sabedoria dos arquitetos que planejam cada andar, garantindo que a estrutura resista às intempéries do tempo.
Fonte original: O Globo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.