O sauim-de-coleira, com sua pele escura e capuz dourado, é mais que um primata endêmico da Amazônia; é um fio delicado na vasta urdidura da criação que se desenrola no entorno de Manaus e Rio Preto da Eva. A recente quantificação das ameaças à sua sobrevivência, impulsionada pelo desmatamento, pela expansão urbana e agrícola, e pela infraestrutura que rasga a floresta, serve como um necessário alerta sobre a premente necessidade de proteção. Não há dúvida de que a perda de habitat e a fragmentação florestal representam um risco gravíssimo para esta e outras espécies, e a ciência, ao mapear estas vulnerabilidades, cumpre seu papel de iluminar a realidade. A própria Doutrina Social da Igreja nos convoca à salvaguarda da casa comum, um dever de todo cristão e de toda sociedade.
Contudo, ao identificar as “melhores” áreas de conservação, o estudo, por vezes, resvala numa armadilha comum à mente tecnocrática: a de transfigurar legítimas aspirações humanas em meras “ameaças” a serem mitigadas. O desenvolvimento econômico, a criação de infraestrutura, a agricultura e a própria densidade humana não são, em sua essência, males a serem erradicados, mas expressões da busca da dignidade e da subsistência. Reduzir a urbanização e a atividade rural a vetores de destruição sem ponderar as causas profundas e as justas necessidades das populações locais é incorrer num reducionismo que desfigura o homem no altar de uma ecologia desencarnada.
A sabedoria de São Tomás de Aquino nos ensina que há uma ordem dos bens, e que a criação foi dada ao homem não para sua exploração desenfreada, mas para seu governo responsável e seu sustento. Leão XIII, em sua `Rerum Novarum`, já alertava para a primazia da família e dos corpos intermediários sobre o Estado, e para a função social da propriedade, que não pode ser dissociada da dignidade de quem a cultiva. A subsidiariedade, pilar da Doutrina Social, exige que as soluções para os problemas surjam o mais próximo possível das comunidades afetadas, não de gabinetes distantes ou de agendas globais impostas de cima para baixo. É preciso questionar, pois, se a identificação de áreas prioritárias para o sauim-de-coleira, sem um plano robusto de compensação e participação, não se arrisca a esmagar as vidas que pulsam nessas mesmas terras.
Quando a política do Estado do Amazonas incentiva polos agroindustriais numa região vital para a conservação, a tensão se torna patente. A mera oposição de agendas de proteção e desenvolvimento é improdutiva. É preciso discernir entre o desmatamento predatório em larga escala — que muitas vezes sequer beneficia as comunidades locais — e as formas sustentáveis de agricultura familiar e uso da terra que, por séculos, foram o alicerce da vida amazônica. A “densidade humana” não é uma ameaça homogênea; é um mosaico de famílias, culturas e saberes que, se integrados e respeitados, podem se tornar os maiores aliados da conservação, e não seus adversários.
A reta solução, portanto, não reside em optar entre o macaco e o homem, mas em integrar a proteção da biodiversidade com um desenvolvimento humano que seja justo e inclusivo. Isso exige da justiça a garantia de compensação adequada, de realocação digna e de acesso a oportunidades para aqueles cujas vidas serão impactadas. Requer da caridade uma atenção especial aos mais vulneráveis, impedindo que os custos da conservação recaiam desproporcionalmente sobre quem já tem pouco. E exige da humildade de todos os envolvidos — cientistas, governos, financiadores — a capacidade de ouvir e de aprender com o conhecimento empírico e as necessidades práticas das comunidades que habitam esses ecossistemas.
A declaração de ausência de conflitos de interesse, ainda que formal, perde peso quando o financiamento de uma agenda de conservação não se traduz num plano integral que ponha a dignidade da pessoa humana no centro. Não pode haver um “luxo ambiental” que se sobreponha às necessidades básicas de saneamento, educação e saúde das populações locais. O cuidado com a criação, para ser autêntico, deve ser um reflexo do amor ao Criador e ao próximo, manifestado na capacidade de construir uma casa comum que seja, ao mesmo tempo, santuário de vida e morada de esperança para todos.
A conservação que verdadeiramente salva não arranca o homem de seu lar, mas o enraíza na terra que ele deve amar e cultivar com justiça e caridade, tecendo juntos o futuro da criação.
Fonte original: racismoambiental.net.br
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.