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Reitoria da UEA: Chapa Única e o Debate Democrático

A reitoria da UEA é reconduzida por chapa única. Apesar dos avanços materiais, o artigo questiona a saúde democrática e a liberdade intelectual, pilares essenciais da universidade.

🟢 Análise

A cortina que se ergue para celebrar a recondução da reitoria da Universidade do Estado do Amazonas no suntuoso Teatro Amazonas revela, de um lado, a face visível de um projeto em andamento: estruturas revitalizadas, salários reajustados, expansão para o interior do estado. Não se pode negar o ímpeto gerencial que busca estender a presença da UEA e aprimorar as condições de trabalho e estudo, com a entrega de bibliotecas, laboratórios e a significativa formação de milhares de profissionais. O entusiasmo expresso nas palavras dos empossados e do representante do governo é compreensível diante de tais feitos, que atestam uma administração focada na materialidade do desenvolvimento universitário.

Contudo, por trás da coreografia da posse e da lista de conquistas concretas, surge uma questão que, para uma instituição vocacionada à livre busca da verdade, ecoa mais que um detalhe processual: a eleição por “chapa única”. Tal cenário, longe de ser um mero atestado de unanimidade, exige um olhar mais penetrante sobre a saúde democrática interna da universidade. Se o sucesso é medido apenas pela eficiência administrativa e pela entrega material, corre-se o risco de obscurecer a vitalidade do debate, a diversidade de ideias e a capacidade de autocrítica que são, por essência, o oxigênio de qualquer centro de saber.

Uma universidade, como “corpo intermédio” da sociedade, tal como nos ensina a Doutrina Social da Igreja, possui uma missão que transcende a mera formação de mão de obra ou a gestão de recursos. Ela é um organismo vivo, chamado a cultivar a inteligência, o pensamento crítico e a busca incessante pela verdade, mesmo quando essa busca é incômoda. A ausência de competição eleitoral significativa pode, a longo prazo, gerar uma calcificação intelectual, onde o consenso administrativo sufoca a efervescência acadêmica. A veracidade institucional exige que os processos, e não apenas os resultados, sejam transparentes e que a oportunidade para a manifestação de alternativas seja genuína.

O “custo da educação”, como bem lembrou o reitor empossado, não é gasto, mas investimento. Todavia, é preciso discernir a ordem dos bens. O investimento em educação não se esgota em paredes recém-pintadas ou em contracheques robustos. Ele se manifesta, primordialmente, no cultivo de uma cultura acadêmica vibrante, na liberdade para a pesquisa original, na pluralidade de métodos pedagógicos e na capacidade de os docentes e discentes questionarem e proporem, sem o constrangimento de uma estrutura de poder que se pretende infalível. Uma universidade que se orgulha de suas políticas afirmativas e de sua expansão para o interior deve, por justiça, assegurar que todos os seus membros – da capital aos mais remotos núcleos – sintam-se parte ativa na construção dos rumos da instituição, não apenas beneficiários passivos.

É louvável que a gestão tenha focado na distribuição de benefícios e na ampliação da infraestrutura. Mas o verdadeiro desafio para o novo quadriênio não é apenas replicar esses avanços materiais, e sim aprofundá-los em um sentido mais amplo. A responsabilidade da reitoria é gigantesca: atender aos mais de 26 mil alunos, ao vasto corpo de servidores e às comunidades que dependem da UEA, garantindo que os investimentos se traduzam em excelência acadêmica e não apenas em estatísticas. Isso implica em mecanismos robustos de prestação de contas, não só sobre o que foi feito, mas sobre como as decisões são tomadas e como a diversidade de visões é acolhida e integrada.

A re-eleição da chapa única para a Universidade do Estado do Amazonas atesta, sem dúvida, a continuidade de uma gestão que soube cumprir uma pauta administrativa e material. No entanto, o verdadeiro amadurecimento de uma instituição de ensino superior se mede não só pela robustez de seus edifícios, mas pela solidez de sua alma, pela vivacidade de seu debate e pela coragem de sua autoanálise. A fidelidade à sua missão exige que o sucesso gerencial seja sempre um meio para a liberdade intelectual e a verdade.

Que o novo mandato não apenas colha os frutos do trabalho passado, mas que adube o solo para que a semeadura de ideias novas e, por vezes, desafiadoras, encontre campo fértil para florescer.

Fonte original: Amazonas1

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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