O martelo que anuncia a construção de uma escola nova na B3 é, antes de tudo, o eco de uma esperança antiga: a de que o tijolo assentado hoje edifique um futuro melhor para os jovens. No Paraná, a promessa de 40 novas unidades escolares via Parceria Público-Privada (PPP), com a CSInfra S/A assumindo a empreitada, surge como um atalho à burocracia, um salto de fé na agilidade do mercado para expandir vagas e o regime integral.
É justo celebrar a criação de quase 30 mil novas vagas e o alívio para famílias que veem seus filhos em escolas com infraestrutura moderna e tempo integral, mantendo a Secretaria da Educação o comando pedagógico. Contudo, a pressa em construir não pode obscurecer a perenidade do que se edifica. Um contrato de concessão que se estende por décadas é mais do que um pacto comercial; é um compromisso intergeracional, cujos custos e benefícios transcendem a frieza de um deságio percentual exibido em um leilão de bolsa.
A Doutrina Social da Igreja, ao falar da justiça social, lembra-nos que a boa administração não se mede apenas pela economia imediata, mas pela equidade na distribuição dos ônus e bônus ao longo do tempo. Um “deságio” inicial, embora atraente, precisa ser confrontado com a projeção dos pagamentos totais da concessão por 25 ou 30 anos, período em que variações macroeconômicas e demandas não previstas podem transformar a aparente vantagem em um fardo pesado para as gerações futuras. A veracidade exige que se exponha não só o brilho do novo, mas a sombra dos compromissos ocultos ou postergados.
A delegação de vinte e um tipos de serviços de apoio para uma única concessionária, por mais que o Estado retenha a gestão pedagógica, levanta questões sobre a subsidiariedade. O princípio ensina a fortalecer o que está perto, a não esmagar os corpos vivos da sociedade nem a centralizar demais, mesmo que em mãos privadas. A infraestrutura e a manutenção são como o solo e a água para a planta: sua qualidade e flexibilidade impactam diretamente o crescimento. Engessar essa parte essencial em contratos rígidos pode sufocar a capacidade de adaptação local e de resposta às necessidades cambiantes da comunidade escolar. Mais do que atender a uma massa de alunos com um serviço padronizado, o Estado deve capacitar o povo a moldar sua própria educação.
A fiscalização da “qualidade dos serviços, disponibilidade e satisfação dos usuários” ao longo de décadas é uma tarefa hercúlea, que requer mais do que cláusulas contratuais; exige uma profunda laboriosidade e um discernimento constante. Quando a prioridade do contratado é o lucro, e os mecanismos de controle são complexos e genéricos, a tendência é uma erosão gradual da qualidade. A responsabilidade por um serviço essencial como a educação não pode ser diluída a ponto de o Estado perder sua real capacidade de intervenção e adaptação, ou de a comunidade se ver presa a um modelo rígido e insatisfatório.
Construir escolas é um dever inadiável. Mas a verdadeira sabedoria não está em meros atalhos financeiros, e sim em edificar com fundamentos sólidos que garantam não apenas a edificação de prédios, mas a perenidade da boa educação e a dignidade das futuras gerações. A pressa de agora não pode ser a dívida de amanhã.
Fonte original: Portal GMC Online
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.