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Pé-de-Meia: Investimento e o Paradoxo da Qualidade na Escola

O programa Pé-de-Meia celebra redução de evasão, mas a coluna questiona se R$18,6 bilhões asseguram qualidade educacional. Exige-se transparência e foco na formação integral, não só na presença.

🟢 Análise

A promessa de que o dinheiro resolverá tudo na educação é um canto de sereia antigo, e o programa Pé-de-Meia, com seu balanço de dois anos, mais uma vez o entoa em alto e bom som. Os números divulgados pelo Governo Federal pintam um quadro animador de permanência estudantil, mas convidam a uma análise mais profunda do que realmente sustenta a boa educação.

É inegável que a redução na evasão (de 6,4% em 2022 para 3,6% em 2024), na reprovação e no atraso escolar representam um alento para um sistema que há décadas sangra jovens talentos. Ver 5,6 milhões de estudantes, mais da metade do ensino médio público, beneficiados por um investimento de R$ 18,6 bilhões é, à primeira vista, um avanço significativo que atesta a boa intenção de manter os jovens nas escolas.

Contudo, a pressa em atribuir tais conquistas *exclusivamente* a um único programa, sem a devida transparência metodológica ou o escrutínio de análises independentes, transforma o que poderia ser um dado robusto em uma narrativa de marketing político. A verdadeira *justiça* na prestação de contas exige mais do que meros comunicados governamentais; exige evidências verificáveis, que isolem variáveis e comprovem a causalidade em um cenário tão multifacetado quanto o educacional.

É aqui que se revela um paradoxo, tão caro à crítica chestertoniana das abstrações modernas: investe-se bilhões para manter o corpo do aluno na sala, mas questiona-se a alma do aprendizado. Manter o estudante na escola é vital, sim, mas não pode ser um fim em si mesmo. O que se aprende, como se aprende, e para que se aprende são as perguntas que definem a verdadeira *qualidade* educacional, e não apenas a métrica da “cadeira ocupada”.

A doutrina social da Igreja sempre enfatizou a educação como um direito fundamental e um meio para a formação integral da pessoa humana. Pio XI, ao tratar da subsidiariedade, e Pio XII, ao diferenciar “povo” de “massa”, alertam para os perigos de uma abordagem estatal que, ao tentar solucionar problemas de cima para baixo, esmague a iniciativa das comunidades e reduza o indivíduo a mero receptor de benefícios. A escola é um espaço de formação, não um local de mera retenção. O povo educado é aquele que desenvolve suas faculdades para o destino comum, e não a massa que cumpre requisitos para um benefício.

O vultoso investimento, embora dirigido a um grupo vulnerável, suscita indagações sobre os 46% de alunos do ensino médio que, não sendo elegíveis, enfrentam desafios porventura semelhantes, mas não contam com o mesmo incentivo. A *caridade* para com os mais vulneráveis deve ser universal em seu escopo, não seletiva a ponto de gerar novas clivagens ou iniquidades na rede pública. Se o objetivo é a permanência, ele deve ser acompanhado de uma busca incansável pela elevação da *qualidade* para todos.

Em vez de uma celebração com dados nebulosos, o momento exige transparência curricular, o fortalecimento dos conselhos escola-família-comunidade e a criação de institutos de virtude, conforme o repertório católico sobre formação. Uma parte desse investimento gigantesco não poderia, com mais retidão, ser direcionada à infraestrutura escolar que beneficia *todos*, à formação continuada de professores que impacta *todos*, ou a materiais didáticos inovadores que transformam a experiência de *todos* os alunos? A *honestidade* intelectual pede que se examine o custo-benefício de forma mais ampla, sem se esconder atrás de números promocionais.

A verdadeira edificação de uma nação se dá não apenas em pontes ou viadutos que se veem, mas nos alicerces invisíveis da alma bem formada de seus jovens. O dinheiro, por mais farto, jamais poderá substituir a dedicação dos educadores e a busca incansável pela excelência intrínseca. A educação não é um cofre que se enche com dinheiro, mas uma semente que brota com a luz da verdade, o calor da *justiça* e a água da formação integral.

Fonte original: Jornal de Brasília

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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