A semente, para brotar e crescer, demanda solo fértil e cuidado constante, especialmente em seus primeiros tempos de vida. A infância é essa semente preciosa, e o estudo recente sobre o impacto da pandemia de Covid-19 nas funções executivas infantis nos força a encarar o terreno que se abriu sob nossos pés durante os anos de isolamento. Seis anos após o mundo ser paralisado, a ciência sugere que os períodos de lockdown afetaram de forma mensurável o ritmo do desenvolvimento de habilidades cognitivas essenciais em crianças, aquelas que coordenam a memória de trabalho, o controle inibitório e a flexibilidade para navegar o mundo.
A preocupação é legítima e grave. Crianças que ingressavam no ensino primário durante as restrições demonstraram um amadurecimento mais lento dessas funções cruciais. Elas perderam a experiência vital de aprender rotinas, adaptar-se a regras de sala de aula e desenvolver a autorregulação ao lado dos colegas – tudo o que os fatos confirmam ser parte integrante da trajetória normal de 30 a 78 meses. A constatação de que o nível educacional da mãe se associava a pontuações mais altas nos filhos aponta para uma dolorosa verdade: as desigualdades sociais e econômicas preexistentes foram não apenas mantidas, mas aprofundadas por políticas que, embora bem-intencionadas, se mostraram cegas aos seus efeitos mais difusos e desiguais. A escola é um porto seguro e um motor de ascensão, e seu fechamento para os mais vulneráveis representou uma interrupção com consequências que ecoam ainda hoje.
No entanto, há uma diferença crucial entre um “ritmo mais lento” e um dano “duradouro” e irremediável, como a narrativa muitas vezes o pinta. A mesma pesquisa aponta que pré-escolares, submetidos às mesmas restrições, demonstraram uma trajetória de desenvolvimento mais acelerada posteriormente, um sinal potente da notável plasticidade e resiliência da infância. Reduzir a complexidade do desenvolvimento humano a um mero “conteúdo” ou “experiência” perdida é um reducionismo perigoso que subestima a capacidade de adaptação e de recuperação. A vida de uma criança não é uma linha reta programada; é um tecido orgânico que, embora possa sofrer rasgos, possui uma espantosa capacidade de se refazer.
É aqui que a justiça se torna a virtude cardeal. As decisões de lockdown, centralizadas e de impacto massivo, não consideraram adequadamente a subsidiariedade, princípio que nos recorda que as esferas menores da sociedade – a família, a escola local, a comunidade – são as primeiras e mais eficazes incubadoras do desenvolvimento humano. O Estado, ao se sobrepor a essas instituições sem salvaguardas ou alternativas eficazes, especialmente para os mais pobres, infringiu um dever de cuidado que vai além da saúde física imediata. A lógica, quase obsessiva, de proteger o corpo negligenciou a pessoa integral, esquecendo que a alma e a mente, para florescer, exigem interação, experiência e rotina social. Como Chesterton, com sua sanidade mordaz, poderia observar, foi uma loucura racional, que em sua busca por um bem restrito, produziu males em campos mais amplos da vida humana.
A questão, portanto, não é meramente de lamentar perdas passadas, mas de edificar um futuro com esperança e ação concreta. Se a escola e a família são os pilares, é nelas que reside a chave da restauração. A “recuperação da experiência” de que tanto se fala não se dará apenas com currículos compensatórios, mas com a reabilitação de uma educação que valorize as virtudes, o convívio e a autorregulação. Isso exige o fortalecimento dos conselhos escola-família-comunidade e a criação de institutos de virtude que deem corpo a essa reconstrução moral-cultural. A sociedade tem o dever de garantir que a trajetória de cada criança, especialmente as mais vulneráveis, seja sustentada por uma rede de apoio que compense os atrasos, sem que isso signifique condená-las a um déficit perpétuo.
Uma sociedade que realmente protege seus filhos não é aquela que os confina por decreto, mas a que lhes garante um solo firme para florescer, oferecendo-lhes as condições materiais e espirituais para que, superada a tempestade, possam alçar voo em sua plenitude.
Fonte original: Correio Braziliense
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.