Luiza Erundina: Política, Parlamento e o Bem Comum Hoje

As reflexões de Luiza Erundina sobre a política atual e a paralisia legislativa. Analisamos desafios da democracia, a tarifa zero e o resgate do bem comum em um cenário polarizado. Entenda!

🔵 Tese — O Relato Factual

A deputada federal Luiza Erundina (PSOL-SP) participou do programa Fórum Onze e Meia na quinta-feira, 5 de março de 2026, para discutir sua trajetória política e a possibilidade de uma nova candidatura a deputada estadual ou federal em São Paulo. Erundina, aos 91 anos de idade e com mais de 60 anos de atuação política, analisou seus sete mandatos em Brasília e o cenário político nacional, apontando os desafios para as próximas eleições.

Durante a entrevista, Erundina destacou que o mandato é definido pelos eleitores, afirmando: "Quem escolhe e elege é o mandatário. Nós somos mandatados pelo eleitor, pelo cidadão que deseja a cidadania política". A parlamentar relatou ter aprovado leis importantes para mulheres, crianças, adolescentes e idosos em seus primeiros mandatos no Congresso Nacional. Contudo, ela expressou que suas propostas têm encontrado dificuldades para avançar nos últimos anos, citando uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) para estabelecer um sistema único de mobilidade no país, com tarifas zero, que está "há 2 anos na Comissão de Constituição e Justiça aguardando ser pautada". Ela atribui essa estagnação à polarização política, que impede a votação de matérias como essa.

Diante das dificuldades legislativas, Erundina indicou uma possível mudança em sua atuação. "Vendo o quanto as minhas iniciativas legislativas já não estão tendo condições de serem tramitadas no congresso, eu me vejo talvez mais motivada, mais mobilizada para trabalhar mais perto da sociedade civil, dos movimentos, das comunidades locais", disse ela, referindo-se à sua possível candidatura em nível estadual. A deputada recordou que o educador Paulo Freire, quando secretário de Educação em sua gestão municipal entre 1989 e 1993, a definia como uma "educadora política". Erundina afirmou que, como educadora política, poderá contribuir mais organizando a população nas periferias do que em Brasília.

A parlamentar reiterou seu compromisso contínuo com a política, "com ou sem mandato". Ela declarou: "Eu nasci fazendo política e vou morrer fazendo política", e complementou que isso pode ocorrer "não necessariamente com mandatos, disputando eleições, mas como educadora política nas cidades, na periferia dos grandes centros, para acumular poder popular". Erundina lamentou que a qualidade dos representantes no Congresso Nacional pareça piorar a cada legislatura e enfatizou a responsabilidade na escolha dos representantes, especialmente no Legislativo, que "representa diretamente o eleitor". Ela concluiu que "nenhuma atividade exige mais ética e compromisso de seriedade como a política".

🔴 Antítese — O Contra-Argumento

A trajetória de Luiza Erundina, com mais de seis décadas de dedicação à política e a aprovação de leis importantes, é um testemunho de compromisso público. Contudo, a análise progressista deve ir além do reconhecimento individual para identificar as dinâmicas estruturais que travam avanços sociais no Brasil. A dificuldade enfrentada por uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que visa instituir a tarifa zero no transporte público, fundamental para a dignidade e o acesso equitativo de milhões de cidadãos, não pode ser meramente atribuída à "polarização política". Essa estagnação, ao contrário, é um sintoma da persistência de interesses econômicos e políticos arraigados que resistem à democratização de serviços essenciais e à redistribuição de recursos, perpetuando desigualdades.

A incapacidade de aprovar políticas públicas inclusivas como a mobilidade gratuita revela uma assimetria de poder gritante no legislativo. Como aponta Jessé Souza em suas críticas à "ralé brasileira" e à forma como o sistema político é capturado, o Congresso Nacional frequentemente opera como um mecanismo de manutenção de privilégios, onde pautas de interesse público mais amplo são subjugadas à lógica de grupos com poder de barganha e acesso privilegiado ao capital político e econômico. A paralisação da PEC da mobilidade não afeta a todos igualmente; ela penaliza desproporcionalmente as populações em vulnerabilidade social das periferias, que gastam uma parcela absurda de sua renda com transporte e têm seu direito de ir e vir, de acesso à cidade e às oportunidades, constantemente precarizado.

A frustração da deputada Erundina ao ver suas iniciativas legislativas barradas remete à análise de Nancy Fraser sobre a política da distribuição e do reconhecimento. A luta pela tarifa zero é, fundamentalmente, uma demanda por redistribuição de recursos e por reconhecimento do direito à mobilidade como um direito fundamental, e não como uma mera commodity sujeita às leis de mercado. Quando o sistema legislativo se mostra impermeável a tais pautas, ele falha em seu papel de representação da cidadania política, evidenciando uma crise de legitimidade que afasta a população da crença nas instituições formais. A sinalização de Erundina de um possível retorno ao trabalho junto à sociedade civil e aos movimentos locais, buscando "acumular poder popular", surge como uma resposta pragmática a essa barreira estrutural, visando construir capacidade política onde o parlamento se tornou um obstáculo intransponível.

A constatação de que o trabalho mais eficaz para a efetivação de direitos pode estar na organização das periferias aponta para a urgência de repensar os canais da participação popular e da construção de políticas públicas inclusivas. Enquanto o Congresso Nacional permanecer um espaço onde os interesses corporativos e de classe se sobrepõem às necessidades da maioria, a estratégia de fortalecer a base, de acumular poder popular fora dos ritos formais, torna-se não apenas uma alternativa, mas um caminho essencial para a democratização real da sociedade. A luta pela tarifa zero, por exemplo, poderia encontrar força não apenas na via legislativa, mas na pressão social organizada, na mobilização comunitária e na construção de outras formas de governança participativa que garantam que os direitos sociais deixem de ser promessas e se tornem realidades concretas para todos.

🟢 Síntese — Visão Integrada

Luiza Erundina: Política, Parlamento e o Bem Comum Hoje

As reflexões da veterana deputada Luiza Erundina sobre sua longa trajetória política e a aparente exaustão dos canais legislativos instigam uma meditação mais profunda sobre o propósito e a prática da política em nosso tempo. Ao lamentar a estagnação de propostas de impacto social, como a que visa a tarifa zero no transporte público, e considerar um retorno ao engajamento direto com a sociedade civil, Erundina toca em uma ferida aberta da nossa democracia: a tensão entre a urgência das demandas populares e a morosidade, ou mesmo a paralisia, das instituições formais.

O Desafio da Paralisia Legislativa e as Reflexões de Erundina

É inegável a legitimidade de preocupações expressas tanto pela deputada quanto pela análise que aponta para causas estruturais da dificuldade de tramitação de certas propostas. A dedicação de uma vida à causa pública, como a de Erundina, merece reconhecimento, e sua constatação de que há forças que impedem o avanço de iniciativas voltadas aos mais vulneráveis encontra eco na realidade de muitos. De fato, como já nos alertava Hannah Arendt, a ação política genuína pressupõe um espaço público onde o diálogo e a deliberação possam florescer para o bem comum, e não ser sufocada por interesses particulares ou pelo mero jogo de poder que impede o agir concertado. Quando a deliberação cede lugar à disputa estéril, o propósito da política esmaece.

Além da Polarização: A Complexidade da Ação Política

Contudo, reduzir a complexidade da paralisia legislativa unicamente à "polarização" ou a "interesses econômicos e políticos arraigados" pode ser uma simplificação perigosa. Embora tais elementos sejam reais e atuantes, essa perspectiva corre o risco de desresponsabilizar os atores políticos e descredenciar o próprio sistema representativo de sua capacidade de reforma. Propostas como a "tarifa zero", por mais meritórias que pareçam em seu ideal de democratização do acesso, exigem uma análise rigorosa e prudente de sua viabilidade econômica, de suas fontes de financiamento e de seu impacto sistêmico na economia e na capacidade de investimento em outras áreas essenciais. A política não se esgota em boas intenções; exige a virtude da prudência, que sopesa meios e fins, custos e benefícios, à luz do bem comum.

É aqui que a sabedoria de Aristóteles e São Tomás de Aquino se mostra indispensável. A verdadeira ação política, aquela orientada pela phrónesis, busca o meio-termo virtuoso, discernindo não apenas o que é desejável, mas o que é possível e, acima de tudo, o que é sustentável para a comunidade como um todo. Como argumentava Edmund Burke, a sociedade é um contrato entre gerações, e as reformas devem ser orgânicas, baseadas na experiência e na ponderação, e não em rupturas radicais que podem gerar mais problemas do que soluções. A Doutrina Social da Igreja, ao defender o destino universal dos bens e a dignidade humana, nos lembra da necessidade de acesso a serviços essenciais como o transporte, mas também da responsabilidade em construir sistemas justos e viáveis que não comprometam a estabilidade e o futuro.

Parlamento e Sociedade Civil: Caminhos para o Bem Comum

A superação deste debate não reside em escolher entre o trabalho no parlamento ou a mobilização popular, mas em compreender que ambos são faces complementares do compromisso cívico. O apelo de Erundina para atuar mais perto das comunidades, "acumulando poder popular", pode ser visto sob a ótica da subsidiariedade: a valorização da iniciativa e da organização local como base para a participação cidadã. No entanto, este "poder popular" deve servir para enriquecer e pressionar o sistema político formal, e não para negá-lo ou substituí-lo por vias extra-institucionais que podem, eventualmente, desviar-se do primado do direito e do bem comum. A elevação do debate exige que tanto os movimentos sociais quanto os legisladores busquem a convergência em torno de princípios éticos perenes.

Resgatando o Sentido da Política para uma Sociedade Justa

Em última análise, o desafio de nossa época é o de resgatar o sentido da política como serviço ao bem comum, superando a polarização estéril e a paralisia interessada. Isso requer a redescoberta da virtude cívica em todas as esferas: nos cidadãos que elejam seus representantes com ética e discernimento, nos legisladores que exerçam sua função com prudência e visão de longo prazo, e nos movimentos sociais que busquem a justiça não pela confrontação intransigente, mas pelo diálogo construtivo e pela proposta de soluções viáveis. Somente assim a política, em sua essência, poderá voltar a ser o instrumento de construção de uma sociedade mais justa, livre e solidária, onde a dignidade de cada pessoa seja integralmente reconhecida e efetivada.

Fonte original: Revista Fórum

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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