O calendário ajustado do Intercolegial para 2026, embora apresentado como uma adaptação pragmática à grandiosidade da Copa do Mundo, não é uma decisão neutra. Ele inclina a balança das prioridades de um evento que se propõe formativo, revelando, no seu cerne, uma tensão entre o espetáculo midiático e o desenvolvimento integral dos jovens. Não se trata de negar a relevância de um evento esportivo global, mas de discernir o que deve pautar a vida da escola e do estudante.
Aceitar a subordinação do ritmo educacional a uma agenda externa de entretenimento é abdicar de parte da autonomia necessária à formação. A concentração de modalidades no primeiro semestre, justamente quando as demandas acadêmicas atingem seu ápice, impõe um ônus desproporcional sobre os estudantes-atletas. Soma-se a isso a pressão sobre as escolas – esses corpos intermediários que a Doutrina Social da Igreja sempre defendeu como baluartes da sociedade –, que precisam reorganizar-se logisticamente sem um processo de consulta que garanta a efetiva aplicação do princípio da subsidiariedade. O que se ganha em visibilidade pode se perder em sobrecarga e frustração.
A retórica de “esporte para todos” e de “fortalecimento das modalidades paralímpicas” é nobre e essencial. Contudo, a veracidade de tal compromisso é testada quando, em paralelo, introduzem-se novas divisões para atletas federados no skate, sem clareza sobre como isso impactará a participação de escolas e alunos com menos recursos ou experiência formal. A intenção de equilibrar a competição é louvável, mas a execução deve garantir que não se criem novas barreiras de acesso. A justiça não reside apenas na proclamação de valores, mas na garantia de condições equitativas para todos os participantes.
Pio XI, em seu tempo, alertou contra a estatolatria, a adoração do Estado. Hoje, poderíamos questionar uma “midiatolatria” ou “mercadolatria”, onde o valor de um evento é medido primariamente por sua compatibilidade com grandes agendamentos de massa e o potencial de visibilidade para patrocinadores, e não pela sua capacidade de servir ao bem da pessoa e da instituição educacional. O esporte escolar não deve ser um mero apêndice do mercado de entretenimento, mas uma ferramenta poderosa para o desenvolvimento da dignidade da pessoa humana, para a formação da temperança, da fortaleza e do espírito de equipe. Sua finalidade é intrínseca à educação, não um meio para a visibilidade de outrem.
É imperativo que os organizadores, em conjunto com as comunidades escolares, reavaliem os critérios que orientam tais ajustes. A integridade do calendário escolar e o bem-estar dos estudantes não podem ser variáveis de ajuste para a conveniência de eventos externos. O que se espera de um Intercolegial não é apenas que evite colisões com os jogos da seleção brasileira, mas que construa, com laboriosidade e reta razão, um ambiente que promova o esporte na sua mais alta finalidade formativa.
A verdadeira medida de um Intercolegial não se manifesta na habilidade de contornar a audiência da Copa, mas na capacidade de nutrir, com justiça e veracidade, o potencial de cada jovem atleta e de cada escola.
Fonte original: O Globo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.