A visão de dezenas de novos campi de institutos federais, abertos em cidades outrora esquecidas pelo mapa da alta formação, evoca no espírito um justo anseio por progresso e equidade. É a promessa de que o saber técnico, porta para a dignidade do trabalho e para a alforria da pobreza, descerá das grandes capitais para a capilaridade do Brasil profundo. O anúncio recente do Ministério da Educação, celebrando a autorização de 38 novas unidades, acompanhado de volumosos aportes para alimentação, equipamentos e extensão, é, em sua superfície, um hino à interiorização e democratização do ensino. Mas a canção, para ser verdadeiramente bela e duradoura, não pode entoar apenas os primeiros versos, ignorando a partitura que se estende para o futuro.
A Doutrina Social da Igreja, inspirada pela ordem natural e pela reta razão, sempre viu na educação um pilar da justiça social, um instrumento de libertação e de edificação da pessoa humana. O fomento à educação profissional e tecnológica, em especial, responde a uma necessidade concreta de formação para o trabalho, de enraizamento das comunidades e de valorização das vocações locais. Pio XI, ao advogar pela subsidiariedade, recordava que o Estado tem o dever de auxiliar e promover, sim, mas sem sufocar as iniciativas menores ou centralizar em demasia o que pode ser gerido mais proximamente. A expansão capilar da rede federal, em princípio, caminha nesse sentido, buscando aproximar a oportunidade do cidadão, em vez de exigir que o cidadão se desenraíze por ela.
No entanto, a boa intenção, por mais nobre que seja, não basta para sustentar uma obra. Há uma preocupação legítima sobre como os custos operacionais contínuos – o salário de professores e técnicos, a manutenção da infraestrutura, a atualização de equipamentos – serão incorporados à matriz orçamentária dos próximos anos, após o fôlego inicial do Novo PAC e dos aportes extraordinários de um único exercício. Uma autorização de funcionamento é a placa de uma fundação, mas não a garantia de um edifício em pé, com portas abertas e salas cheias de mestres e alunos. A mera promessa de “futuros exercícios” pode soar como uma canção de ninar para uma realidade que exige um plano de custeio detalhado, perene e transparente.
Aqui entra a virtude da veracidade na gestão pública e a laboriosidade da execução. A ampliação da oferta educacional é um bem, mas apenas se a qualidade for assegurada. O risco de uma expansão meramente numérica, desacompanhada de um planejamento robusto para a atração e retenção de quadros qualificados, e para a garantia de uma infraestrutura à altura da promessa, é o de criar “elefantes brancos” ou de diluir a excelência das instituições já existentes. A formação de um povo não se mede pela quantidade de prédios erguidos, mas pela solidez dos saberes transmitidos e pela integridade dos homens e mulheres formados. Chesterton, em seu paradoxo, talvez lembrasse que a coisa mais difícil de construir é uma ponte que leva a lugar nenhum.
A centralização da decisão, sem uma contrapartida clara de como se fará a fiscalização da qualidade e a adequação às vocações econômicas e sociais de cada localidade, pode gerar uma assimetria de poder prejudicial. Os gestores das instituições federais, hoje, enfrentam o desafio hercúleo de equilibrar a demanda por expansão com a escassez crônica de recursos para a manutenção da excelência. A celebração do número de novos campi não pode ofuscar a necessidade de questionar: quais as garantias de que esses novos polos não se tornarão centros de ensino esvaziados por falta de custeio contínuo e de planejamento pedagógico adaptado?
O investimento em educação é, sem dúvida, um ato de esperança no futuro. Contudo, para que essa esperança se concretize em árvores frondosas, e não em sementes secas, a generosidade dos recursos iniciais deve ser complementada pela justiça de um plano que garanta a perenidade da qualidade e a integridade da entrega. A verdadeira expansão é aquela que, ao fincar um marco no chão, já tem em mente a longa jornada de cuidado e nutrição que fará daquele ponto uma fonte inesgotável de saber e desenvolvimento para o povo.
Fonte original: racismoambiental.net.br
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.