O desvio de recursos de aposentados, aqueles que já deram sua cota de suor à nação, não é um mero delito financeiro; é uma traição que atinge a própria decência de uma sociedade. Quando a Polícia Federal prende um indivíduo sob suspeita de defraudar os mais vulneráveis, e esse indivíduo tem ligações comerciais com o filho do Presidente da República, o mínimo que se espera das autoridades é uma busca intransigente pela verdade, isenta de manobras e artifícios. O escândalo envolvendo o “Careca do INSS” e as investigações sobre Fábio Luís Lula da Silva, o “Lulinha”, são um lembrete áspero de que a justiça não pode fazer acepção de pessoas, nem mesmo das mais próximas ao poder.
Nesse cenário de gravidade, surge uma nova estratégia palaciana: o governo busca um súbito e conveniente “afastamento” do Supremo Tribunal Federal (STF). Até o ano passado, a Corte era percebida como um “pilar da governabilidade” e seus ministros eram interlocutores habituais do Presidente. As reuniões mensais, um símbolo dessa proximidade, agora desapareceram após a eclosão do “caso Master”. É notável que a mudança de percepção ocorra precisamente quando o espectro da investigação se aproxima do círculo íntimo do Executivo, com o Presidente Lula reclamando em privado do ministro Moraes e temendo ser “respingado” pelas denúncias que envolvem a mulher do magistrado. Essa guinada revela uma preocupação maior com a gestão da crise de imagem do que com a integridade das instituições.
A estratégia, revestida de um verniz de republicanismo, mais se assemelha a um teatro político onde a cortina de fumaça se ergue para ocultar o palco real dos fatos incômodos. Não por acaso, o Planalto, através do primeiro escalão e das redes sociais do PT, aposta na narrativa de que o escândalo Master teve origem no governo anterior e que o Banco Central, sob Roberto Campos Neto, agiu com leniência. Ao mesmo tempo, minimiza as ligações de figuras como Jaques Wagner e Rui Costa com os envolvidos, enquanto aponta “implicações graves” para políticos de oposição. É um paradoxo moderno que, quanto mais se tenta desviar o foco, mais a sombra se alonga sobre o ponto que se quer ocultar.
A Doutrina Social da Igreja, desde Leão XIII, defende a primazia da justiça e a proteção dos trabalhadores e suas famílias. O salário justo, a propriedade com função social e a dignidade de quem já labutou são bens que o Estado deve zelar, não permitir que sejam subtraídos. A tentativa de transferir a culpa ou de relativizar as responsabilidades, em vez de enfrentar os fatos com veracidade, corrói a confiança pública nas instituições. A independência do Judiciário e do Banco Central, por exemplo, não pode ser uma bandeira hasteada ou arriada conforme a conveniência política do momento. Pio XI, em sua crítica à estatolatria, advertia para o perigo de um Estado que se excede em suas funções, submetendo os demais corpos sociais aos seus desígnios. Aqui, vemos uma tentativa de subordinar a verdade processual à conveniência partidária.
A verdadeira saúde do corpo político exige a responsabilização equânime de todos. A postura de exigir que ministros do STF “prestem esclarecimentos” ou “limpem suas biografias”, se legítima, deve ser aplicada com o mesmo rigor a todas as figuras públicas envolvidas, sem blindagens seletivas. A manipulação de narrativas, a assimetria de poder na comunicação e o desvio de foco são táticas que tratam o povo como massa a ser persuadida, e não como cidadãos livres capazes de discernir a verdade. Uma ordem justa não se constrói sobre as areias movediças da conveniência, mas sobre a rocha da justiça e da honestidade.
O custo da verdade e da justiça, quando adiado, sempre recai sobre o destino comum da nação e, mais duramente, sobre aqueles que nada possuem além de sua esperança por um governo íntegro.
Fonte original: O Globo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.