A generosa intenção de salvaguardar a saúde pública, ao expandir o alcance de uma vacina essencial como a do HPV, é um gesto que, em princípio, honra a caridade e a justiça social. Reconhecer a vulnerabilidade de diversos grupos – de jovens adolescentes a adultos imunocomprometidos ou que já enfrentaram lesões graves – e oferecer-lhes uma barreira contra o flagelo do câncer é, sem dúvida, um avanço. A promessa de reduzir a circulação viral e aliviar o sofrimento futuro, tal como os dados científicos atestam a eficácia da imunização, ressoa com o dever de proteger a vida e o bem-estar da pessoa, um dos pilares da ordem natural.
Contudo, a boa vontade, quando desacompanhada da reta razão e da prudência administrativa, pode gerar efeitos contrários aos desejados. A ampliação do público-alvo, em vez de robustecer a saúde coletiva, arrisca estirar uma rede de proteção já frágil até o ponto de rasgá-la. Em João Pessoa, como em tantas outras municipalidades, a cobertura vacinal para o grupo etário primário (crianças e adolescentes de 9 a 14 anos) ainda não alcança o ideal, o que significa que o alicerce da prevenção populacional a longo prazo permanece incompleto.
Ora, a justiça na alocação de recursos não se mede apenas pela vastidão das categorias incluídas, mas pela efetividade com que cada uma delas é de fato alcançada. Quando se dispersa o foco e se multiplicam os protocolos — exigindo prescrições médicas e comprovações diagnósticas para novos grupos, ao mesmo tempo em que se busca “resgatar” os já perdidos —, o sistema de saúde, em vez de uma máquina bem azeitada, pode transformar-se num labirinto burocrático. A mensagem de saúde pública, vital para a adesão, corre o risco de se tornar confusa, transformando-se num ruído indistinto para o povo, que se vê diante de uma profusão de regras para uma mesma vacina.
A Doutrina Social da Igreja, particularmente por meio de Pio XI com o princípio da subsidiariedade, alerta para os perigos de uma ação centralizadora que, ao pretender abraçar tudo, esmaga a capacidade e a eficácia das instâncias mais próximas do cidadão. Fortalecer as unidades básicas de saúde, capacitar os profissionais na linha de frente e simplificar o acesso para o público geral, especialmente para aqueles na idade primordial da vacinação, deveria ser a prioridade incontornável. A ampliação, embora louvável em seu escopo, precisa ser acompanhada por um aumento proporcional na capacidade de execução e na clareza da comunicação, para que a nobre intenção não se perca em um emaranhado de exigências.
É preciso discernir: a vacina é uma ferramenta; a estratégia de aplicação é a arte do governo. Para que a expansão de grupos prioritários não se converta em mera contabilidade de boas intenções, faz-se imperativo que a gestão pública demonstre laboriosidade na operacionalização e veracidade na avaliação de resultados. Isso implica não só em exibir números de doses aplicadas, mas em apresentar métricas claras de adesão aos esquemas completos de vacinação para cada grupo, bem como garantir que as barreiras de acesso para os mais vulneráveis sejam diligentemente removidas, e não adicionadas.
A proteção da saúde não se constrói apenas no papel das novas normativas, mas na capilaridade real do cuidado que alcança a todos, do mais jovem ao mais frágil. De que adianta estender uma coberta se ela é tão fina que não aquece ninguém? A verdadeira medida do sucesso de uma política pública é a vida que ela de fato protege, e não a mera lista de quem ela pretende alcançar.
Fonte original: Opinião e Notícia
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.