Quando a balança da república se desequilibra, o tilintar das moedas de confiança cívica pode ser mais alto que o clamor da discórdia, mas é o silêncio da razão que se faz necessário para repor a ordem. As recentes declarações do Brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Júnior, ex-comandante da FAB, ao jornal Estadão, são um espelho valioso para perscrutar o delicado lugar das Forças Armadas no tecido social e político brasileiro. Sua defesa explícita da legalidade, hierarquia e disciplina é, sem dúvida, uma âncora necessária num mar de incertezas. Todavia, a entrevista não apenas revela a firmeza de um líder em momentos críticos, mas também expõe as raízes históricas e culturais de uma tensão que persiste e exige veracidade radical de todos.
A preocupação legítima aqui não se restringe à conduta de indivíduos, por mais condenável que seja o golpismo, mas mergulha fundo na autopercepção da instituição. O Brigadeiro aponta corretamente a quebra de unidade dos comandos em 2022 e a perseguição pessoal que sofreu, mas não se pode ignorar o dado da pesquisa Atlas/Intel: 30% da população adulta do Brasil não encararia “artifícios” para manutenção no poder como um golpe. Isso sugere que o desafio democrático transcende a mera adesão formal da cúpula militar à lei; reside, igualmente, na compreensão societal do papel das instituições e na internalização dos valores democráticos. É neste ponto que a distinção entre povo e massa, tão cara a Pio XII, se torna crucial: a massa é suscetível à manipulação, enquanto o povo é capaz de discernimento e de defender a ordem moral pública.
A memória do pai do entrevistado, que dedicou um livro de 1889 à ideia do Exército como “Poder Moderador da República Federativa do Brasil”, não é uma nota de rodapé, mas um sintoma de uma cultura que ainda flerta com a tentação de se colocar acima da Constituição e do voto popular. Essa é uma visão que, por mais bem-intencionada que seja, conflita com a concepção católica de liberdade ordenada defendida por Leão XIII, que subordina toda autoridade, inclusive a militar, à lei natural e ao bem comum da sociedade civil, anterior e superior ao Estado em muitas de suas manifestações. Ex-comandantes, ao manifestarem publicamente suas preferências partidárias, mesmo que na reserva, borram a linha entre a esfera pessoal do cidadão e a autoridade simbólica do cargo que ocuparam, minando a indispensável apartidarização das Forças.
A necessidade de profissionalização e modernização das Forças Armadas, aprimorando seu orçamento e sistemas de defesa, é incontestável. Ninguém sensato deseja um “tigre desdentado”. Contudo, essa demanda não pode se travestir de um pedido de autonomia que dispense o escrutínio democrático ou que ignore as prementes necessidades sociais de um país tão desigual. A defesa nacional deve ser transparente e responsável, não uma caixa-preta corporativa. A sugestão de revisão de condenações sem a devida fundamentação jurídica e factual, por exemplo, embora possa partir de uma preocupação com a justiça individual, lança sombra sobre a isonomia e o devido processo legal, essenciais para a justiça em qualquer sociedade.
É aqui que a humildade se faz imperiosa. A sanidade contra a loucura lógica das ideologias, como diria Chesterton, exige que uma instituição tão vital para a República reconheça que seu lugar é o da defesa da nação, e não o de tutor ou árbitro de seus destinos políticos. Um corpo militar forte é aquele que se submete inquestionavelmente à autoridade civil eleita, fortalecendo a democracia, e não aquele que se imagina um poder à parte. A Força Aérea demonstrou essa sanidade em 2022, e essa posição unânime de seus altos comandos é um alicerce que precisa ser reafirmado e compreendido por todos.
O futuro da nação não se constrói sobre as areias movediças da ambiguidade histórica ou da politização da caserna, mas sobre o cimento da confiança cívica e da clareza institucional. A lealdade primeira do militar é à Constituição, não a um projeto partidário, e o futuro da nação se constrói sobre essa verdade inegociável.
Fonte original: Estadão
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.