É tentador fixar os olhos nos faróis luminosos de um talento individual, como o da professora Débora Garofalo, e nas histórias de superação que sua paixão incendeia. O caso de William, que aprendeu a ler e escrever e galgou os degraus até a USP, é um testemunho vívido do poder de um “olhar humano” e de metodologias que transformam sucata em helicópteros e esperança em futuro. Essa capacidade de inovar, de ver no lixo das ruas o material para a robótica e na inteligência artificial uma ferramenta de inclusão, inspira e aponta para o que a educação brasileira *poderia* ser. O Espírito Santo, ao atentar para a saúde mental do professor, demonstra que gestores prudentes entendem a dimensão humana da equação.
Contudo, a Doutrina Social da Igreja, ao nos convidar à justiça e à verdade, exige que não nos detenhamos apenas nos lampejos isolados de excelência. É preciso olhar para o vasto e sombrio cenário que as sombras desses faróis revelam. Que fazer quando 71% dos alunos do ensino fundamental público não têm internet em casa e 84% das secretarias municipais carecem de orçamento mínimo para tecnologia? Como sustentar o discurso da inovação quando 39% das redes de ensino não oferecem formação continuada aos docentes? A heroica laboriosidade de um professor, por mais transformadora que seja, não pode jamais servir de véu para a negligência estrutural que condena milhões de alunos à marginalização e milhares de educadores ao esgotamento.
A questão central não reside em rejeitar a tecnologia, que é um bem e pode ser uma poderosa aliada da inteligência e da criatividade humana. O problema surge quando a ferramenta, por sua sedução ou por seu custo, desvia o olhar do fundamento, dos alicerces. É preciso questionar a sanidade de uma política que exalta “ensinar IA sem internet” como solução de inclusão, enquanto ignora a demanda por um investimento massivo e orgânico na infraestrutura básica, na dignidade salarial do professor e na formação que não se improvisa em palestras esporádicas. A metáfora de construir um belo telhado sobre paredes que ameaçam ruir é eloquente: a obra pode impressionar, mas sua permanência é uma ilusão.
A história de William, antes de ser um triunfo da robótica, é uma denúncia da falha sistêmica que o deixou por oito anos invisível, alheio à capacidade de ler e escrever. A intervenção de Débora Garofalo, nesse sentido, não foi apenas tecnológica, mas profundamente de caridade e de veracidade, oferecendo o que era básico e fundamental. A recomposição de aprendizagens, de fato, não pode reduzir exigências curriculares, mas exige primeiramente um resgate do fundamental: alfabetização, raciocínio lógico, conhecimento do cânone. E isso se faz com professores bem formados, bem remunerados, amparados por uma comunidade e um Estado que praticam a subsidiariedade, garantindo as condições para que cada escola e cada família possam cumprir sua missão.
A verdadeira edificação da educação, portanto, não se faz pela somatória de milagres individuais ou pela mera introdução de tecnologias “mão na massa”, por mais bem-intencionadas que sejam. Exige um juízo reto sobre o que é essencial e o que é acessório. Requer o compromisso com a justiça social que assegure a todos, e não apenas aos agraciados, acesso a um ensino de qualidade. Demanda a responsabilidade dos gestores em construir um sistema que não apenas celebre seus heróis, mas eleve a condição de seu povo, do mais humilde ao mais promissor, garantindo a cada um o direito e os meios para desvendar o mundo e construir o seu destino.
A educação de um povo é como uma grande catedral: a glória dos vitrais e a audácia da abóbada dependem da solidez da pedra fundamental e do cuidado com cada tijolo, assentado por mãos firmes e reconhecidas, para que sua beleza e sua verdade resistam ao tempo.
Fonte original: Tribuna do Norte
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.