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Educação Socioemocional: Risco dos Programas Padrão

A educação socioemocional em escolas, via programas como o LIV, é criticada. O artigo questiona a padronização das emoções, defendendo a primazia da família e a subsidiariedade.

🟢 Análise

A agitação das redes sociais, com seu fluxo incessante de comparações e o imperativo de uma felicidade perene, talvez seja a melodia de fundo mais cruel para o sofrimento silencioso de tantos jovens. Quando a Pesquisa Nacional de Saúde Escolar revela que mais de 40% dos adolescentes frequentemente se sentem irritados ou nervosos, que 30% acreditam que ninguém se importa e que um quinto sente a vida sem sentido, o alarme não é apenas retórico; é o sinal grave de uma fratura profunda na alma das novas gerações. A urgência de intervir é inegável, e o zelo de educadores em buscar soluções é, em si, um gesto de caridade.

É nesse cenário de angústia real que a Rede Salesiana, invocando a longa tradição do Sistema Preventivo de Dom Bosco e alinhando-se às competências da Base Nacional Comum Curricular, propõe o reforço da educação socioemocional, com a adoção do programa LIV. A intenção, como expresso pelas supervisoras pedagógicas, é louvável: cultivar autoconhecimento, empatia, resiliência e a capacidade de lidar com frustrações, formando pessoas “fortalecidas, empáticas, cuidadosas e verdadeiramente humanas”. Há uma legítima ânsia de equipar os jovens com ferramentas para atravessar o mar revolto da modernidade, evitando a impulsividade e a violência que nascem da incapacidade de nomear e gerir a própria interioridade.

Contudo, é aqui que o juízo prudencial deve ser convocado, não para refrear o ímpeto do bem, mas para garantir que ele atinja seu alvo mais profundo. O risco de programas padronizados e comercializados, como o LIV, reside na tentação de reduzir a complexidade abissal do desenvolvimento emocional e moral a um conjunto de “habilidades” a serem ensinadas em aulas semanais. A vida interior do homem, seu universo de paixões e virtudes, é um jardim que se cultiva com esmero e paciência, através de solo fértil e sementes próprias, e não um conjunto de peças intercambiáveis a serem instaladas por um manual externo.

O Magistério da Igreja, ecoando a voz da reta razão e do direito natural, sempre recordou que a família é a sociedade primeira e a principal educadora, especialmente na formação moral e afetiva dos filhos. A escola, com todo o seu mérito e importância, é um auxiliar, um corpo intermediário que coopera com os pais, mas não os substitui em sua autoridade e responsabilidade primordiais. Leão XIII, em sua Rerum Novarum, já apontava a anterioridade da família em relação ao Estado, princípio que se estende à autonomia de suas decisões pedagógicas. Delegar a um programa comercial externo a catequese das emoções pode, inadvertidamente, subverter essa ordem, impondo valores e métodos que talvez não dialoguem com a cultura familiar, ou que exijam das crianças uma “performance emocional” padronizada, que deslegitima a diversidade e a autenticidade de seus sentimentos.

Mais ainda, a verdade de um programa não se valida apenas pela intenção, por mais nobre que seja, ou por “percepções das famílias” — que, em um “especial publicitário”, soam quase como testemunhos pré-formatados. A exigência da veracidade nos impõe questionar: quais são as evidências empíricas independentes e de longo prazo que atestam a eficácia de um programa como o LIV para enfrentar problemas tão enraizados quanto a ansiedade, a desesperança e a sensação de inutilidade que assolam nossos jovens? O desenvolvimento de virtudes como a fortaleza, a temperança e a caridade, que são o verdadeiro antídoto para a desordem afetiva, não se dá por meio de “competências” ensinadas, mas pela imitação de exemplos, pela disciplina contínua e pela graça. A fala de que o programa é uma “ferramenta poderosa para a organização coletiva e mudança social” soa como um idealismo com matizes ideológicos, que subverte o fim primário da educação: formar almas íntegras, e não agentes de “mudança social” conforme uma pauta predeterminada.

A solução para a crise de saúde mental e emocional da juventude não reside na mercantilização da pedagogia das emoções, nem em transferir à escola uma carga que é, antes de tudo, da família, da comunidade e, finalmente, de uma cultura que se afastou dos bens perenes. A verdadeira formação socioemocional nasce de um ambiente onde a criança e o jovem são amados, ouvidos, corrigidos com caridade, estimulados à contemplação do belo, do verdadeiro e do bom. Requer a presença de adultos que sejam modelos de virtude, de uma escola que ensine não apenas conteúdos, mas um modo de vida, e de uma sociedade que ofereça horizontes de esperança e significado. A subsidiariedade nos recorda que as soluções mais eficazes são aquelas que brotam organicamente das realidades mais próximas, fortalecendo os laços de pertença e não impondo currículos externos como panaceias universais.

Enfrentar o sofrimento juvenil com um programa pronto, sem antes fortalecer os pilares da família e da comunidade, pode ser como tentar pintar uma parede mofada: o problema volta, e a aparência de solução apenas mascara a urgência de tratar a raiz. A verdadeira educação, arraigada nos princípios da fé e da razão, busca nutrir a alma para a vida virtuosa, e não para a mera performance de habilidades emocionais.

Fonte original: globo.com

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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