Atualizando...

Artemis 2: Glória Espacial e o Custo na Terra

Artemis 2 exalta a exploração espacial, mas a coluna questiona prioridades de recursos. Contrastamos a glória cósmica com a fome e doença na Terra, debatendo a função social dos bens.

🟢 Análise

Enquanto o foguete SLS rasgava os céus da Flórida em direção à Lua, levando quatro astronautas na mais distante viagem já empreendida por seres humanos, bilhões de almas na Terra continuam a lutar contra uma realidade muito menos espetacular: a fome, a doença e a devastação ambiental. A celebração eufórica da missão Artemis 2, embora testemunho inegável da audácia humana e da engenhosidade técnica, coloca em relevo uma assimetria moral que não podemos, por dever de justiça, ignorar.

A Doutrina Social da Igreja, desde Leão XIII, ensina que os bens – e, por extensão, os vastos recursos financeiros e intelectuais de uma nação – possuem uma função social. Não basta que a propriedade seja privada ou estatal; ela deve servir ao bem-estar integral da pessoa humana e ao bem comum. Quando bilhões são canalizados para uma empreitada espacial, surge a questão ineludível do custo de oportunidade. Que investimentos em infraestrutura básica, em saúde pública ou em educação poderiam ter sido feitos aqui na Terra? A justiça exige uma ordenação dos bens que priorize o urgente e o vital, antes de se lançar ao grandioso e ao distante.

Pio XI, em sua crítica à estatolatria, advertia para a tentação dos grandes projetos estatais de se divorciarem do bem concreto das pessoas. A retórica de “humanidade” que acompanha esses lançamentos, por vezes, serve para velar uma realidade mais prosaica: trata-se, primariamente, de projetos de estados-nação específicos, com seus próprios interesses estratégicos e geopolíticos. O Canadá orgulha-se de ser a “segunda nação” a enviar um astronauta à Lua, e a Europa celebra o papel fundamental de seu módulo de serviço. Essas conquistas são legítimas no plano do avanço tecnológico e da cooperação internacional, mas não podem eclipsar a questão central: quem realmente se beneficia, de forma tangível, dessa expansão, e quem é deixado para trás, no chão, a contemplar as estrelas com a barriga vazia?

A verdadeira coragem, neste contexto, reside na humildade de reconhecer que o domínio do cosmo não exime a humanidade de sua responsabilidade mais imediata sobre o próprio lar. Há uma loucura que Chesterton, com sua habitual perspicácia, desnudaria: a loucura de escalar as mais altas montanhas para ver o mundo, mas tropeçar na pedra do próprio quintal. A curiosidade e o gênio humano são dádivas divinas, mas devem ser ordenados pela caridade e pela reta razão. Não se trata de frear o espírito explorador, mas de temperá-lo com a consciência de que a Terra, nosso lar comum, clama por atenção e cuidado.

As preocupações legítimas quanto à sustentabilidade da exploração espacial, à potencial corrida por recursos lunares sem um arcabouço ético robusto e à concentração de poder tecnológico em poucas mãos são questões prementes. A glorificação de uma aventura, por mais impressionante que seja, não pode nos cegar para a necessidade de um discernimento político que alinhe a ambição com a responsabilidade social. Um projeto verdadeiramente global e inclusivo começaria por erradicar as chagas que afligem bilhões de pessoas, elevando a dignidade de cada indivíduo antes de almejar a glória de um passo na poeira lunar.

A glória de voar entre as estrelas é legítima, mas a primeira honra da humanidade reside em zelar pelo terreno que a sustenta, não o abandonando em nome de um futuro distante que poucos poderão sequer contemplar.

Fonte original: Folha de S.Paulo

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

Artigos Relacionados