O que era para ser a grande ágora da liberdade de expressão na era digital, hoje se transmuta, diante dos nossos olhos, num campo murado, cujas cercas invisíveis se movem ao sabor do algoritmo e do caixa. A plataforma X, o antigo Twitter, reconfigurou suas regras de monetização e alcance, alegando buscar “conteúdo original de alta qualidade” e combater “reposts roubados e clickbait”. Em tese, um propósito nobre; na prática, uma guinada que penaliza agregadores de notícias e links externos, enquanto eleva a visibilidade de perfis com um viés ideológico particular.
Não se pode ignorar a preocupação legítima de qualquer plataforma em remunerar o esforço criativo e a produção genuína, afastando-se do parasitarismo de cópias e do caça-cliques vazio. É uma aspiração comercial compreensível reter o usuário dentro do próprio ecossistema e premiar quem ali edifica. Todavia, a maneira como o X implementa essa política acende um farol de alerta para a ordem da comunicação pública e a reta justiça. Agregadores de conteúdo, muitos dos quais exercem um valioso trabalho de curadoria e direcionamento a fontes primárias, viram seus pagamentos reduzidos em 60%, com previsão de mais 20% de corte. Links para plataformas externas terão suas impressões drasticamente diminuídas em até 90%.
A preocupação não reside apenas nos percentuais, mas na assimetria de poder e na ausência de critérios transparentes. Quem define o que é “conteúdo original de alta qualidade”? Os exemplos citados nominalmente pela diretoria do X como modelo a ser seguido – perfis que inflamam o sentimento anti-establishment, criam paródias políticas de direita com inteligência artificial ou alertam sobre a corrupção de crianças pela IA, exigindo a submissão tecnológica à moral religiosa – revelam um alinhamento que transcende a mera busca por engajamento. A mera descrição desses perfis que o X eleva como modelo já sinaliza um recorte, uma preferência que, ainda que não seja a causa primária das mudanças algorítmicas, se torna um efeito inescapável e, talvez, bem-vindo pela plataforma.
Aqui, o paradoxo chestertoniano se manifesta: ao buscar a “originalidade” por meio de um funil algorítmico opaco, a plataforma pode estar, de fato, fomentando uma uniformidade ideológica disfarçada de pluralidade. Quando uma entidade privada assume para si o papel de árbitro do que é “verdadeiro” ou “relevante” a ponto de moldar o campo de batalha da guerra cultural, a liberdade ordenada, que São Tomás de Aquino nos ensina, se vê fragilizada. Não é liberdade, mas licença para impor uma curadoria unilateral que favorece certas vozes em detrimento de outras, mesmo as que buscam a veracidade em sua raiz.
Pio XII, ao diferenciar “povo” de “massa”, advertiu-nos sobre os perigos da uniformização do pensamento e da manipulação que transforma cidadãos em meros receptores passivos. Quando o algoritmo de uma plataforma global penaliza quem compila informação ou quem busca direcionar o leitor para a fonte original – por vezes, o jornalismo investigativo que desvela as entranhas do poder – ele não apenas ataca um modelo de negócio, mas mina a diversidade informacional que alimenta a deliberação pública. A verdade não se impõe por decreto de algoritmo, nem a justiça se cumpre pela supressão de fontes de informação legítimas. Uma infraestrutura de comunicação que se torna braço financeiro ou político de um campo ideológico, ainda que disfarçado de incentivo à originalidade, precisa ser julgada pela honestidade de seus meios e pela retidão de seus fins.
A verdadeira ordem na comunicação exige mais que a pura técnica; demanda uma justiça que remunere o trabalho honesto, uma veracidade que não se esconda atrás de algoritmos secretos, e uma subsidiariedade que não esmague os corpos intermediários da imprensa e da agregação, que tanto contribuem para a formação de um povo informado. A sanidade, neste teatro digital, é reconhecer que a busca por lucro não pode justificar a deformação da realidade para milhões de usuários.
É preciso que o campo digital preserve a distinção entre a legitimação do conteúdo pela sua originalidade técnica e a pretensão de legitimar um conteúdo pela sua conveniência ideológica. A transparência nos critérios de “qualidade” e a abertura à diversidade de formatos e vozes são deveres de justiça para quem detém as chaves das praças públicas contemporâneas.
Fonte original: Revista Fórum
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.