O clique sutil de uma notificação, o discreto “visto azul” que surge na tela, há muito se tornou mais que um simples sinal digital; é um pequeno pacto. Uma promessa silenciosa de reconhecimento, um atestado de que a mensagem não apenas chegou, mas foi recebida pelo intelecto do interlocutor. Contudo, a astúcia tecnológica, sempre pronta a desdobrar novas ferramentas, oferece hoje a muitos a possibilidade de desativar ou contornar esse breve elo de comunicação, lendo sem, contudo, se fazer presente ao remetente. Tal habilidade, embora apresentada como um ganho de “privacidade” ou mera funcionalidade, esconde uma tentação que, se não examinada com a reta razão, pode corroer os alicerces da verdade na comunicação.
É legítima a preocupação com a intromissão em nosso tempo e espaço, e a demanda por um resguardo da atenção individual em meio ao frenesi digital. Ninguém deveria ser obrigado a uma resposta instantânea e incessante. No entanto, a questão aqui não reside na liberdade de responder quando se quer, mas na licitude de subtrair um sinal fundamental de reconhecimento. A instrução de como velar o “visto azul”, ao invés de meramente informar sobre uma função técnica, passa a promover, ainda que de forma oblíqua, uma comunicação menos transparente. Isso não é um avanço neutro, mas uma inclinação que fomenta uma cultura de ambiguidade nas interações pessoais.
A doutrina social da Igreja, ao falar de **mídia responsável** e da **ordem moral pública** que deve governar as interações humanas, recorda-nos que a comunicação não é um campo meramente técnico, desprovido de implicações éticas. São Tomás de Aquino nos ensina que a verdade é uma virtude essencial para a convivência, e que a **veracidade** na comunicação se estende para além do mero conteúdo das palavras, alcançando também os sinais que a acompanham. O “visto azul”, em sua singeleza, é um desses sinais. Ele estabelece uma base mínima de **justiça** na interação, dando ao remetente a informação devida sobre o status de sua mensagem. Quando um veículo de imprensa se dedica a esmiuçar os caminhos para se esquivar dessa mínima transparência, sem ponderar as consequências relacionais, ele negligencia sua responsabilidade de fomentar a clareza e a confiança, e não a evasão.
A comunicação humana, no seu cerne, é um ato de partilha e vínculo. Seja na praça pública, no diálogo familiar ou nas mensagens trocadas via aplicativos, a clareza e a honestidade são virtudes que cimentam as relações. O desejo unilateral de “privacidade” que se manifesta na desativação dos sinais de leitura pode, muitas vezes, colidir com a legítima expectativa de transparência do outro, criando uma assimetria na relação que é fonte de ansiedade e mal-entendidos. O remetente, privado do feedback, fica no limbo da incerteza, o que pode impactar sua capacidade de agir ou de compreender a dinâmica da troca.
Não se trata de vigiar cada passo ou forçar a todo custo a prontidão. Mas a edificação de uma vida comum harmoniosa exige que os elos entre as pessoas sejam tecidos com a fibra da confiança mútua e da clareza, em vez de se perderem sob o véu da ambiguidade. O bem da cidade e das famílias, em seu cotidiano, depende de um fluxo de informação que não seja deliberadamente obscurecido pela conveniência individual.
Em suma, a possibilidade técnica de ler sem deixar rastros, quando elevada à condição de prática desejável, pode desvirtuar a finalidade da comunicação, que é aproximar e não isolar. É um pequeno ato que, repetido por muitos, contribui para uma cultura de evasão, onde o reconhecimento do outro é visto como um encargo, e não como a primeira camada de um diálogo em **justiça** e **veracidade**. A verdadeira liberdade de expressão e recepção não se conquista pela invisibilidade, mas pela consciência de que cada mensagem enviada e recebida carrega consigo o peso e a dignidade de uma relação humana.
Fonte original: O Globo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.