Quando uma nação se vê enredada em um cerco econômico, com o pão medido e o petróleo vigiado por potências estrangeiras, é tentador atribuir todo o infortúnio à mão externa. A Venezuela, sob o jugo de sanções implacáveis que asfixiam sua economia e corroem o tecido social, é um testemunho vivo do sofrimento que tal coerção impõe ao povo. Os relatos de uma redução drástica da pobreza, o aumento da alfabetização e a expansão de serviços sociais sob o chavismo, mesmo que apresentados por vozes militantes, apontam para uma genuína preocupação com o destino dos mais vulneráveis que, infelizmente, o bloqueio buscou estrangular. A tenente Alejandra del Valle Oliveros Velásquez, morta em um ataque atribuído a mísseis americanos, é um rosto trágico nessa contabilidade de vidas ceifadas por uma política de força bruta. É uma verdade inegável que a guerra econômica, como qualquer outra guerra, flagela inocentes e subverte a ordem natural das coisas, gerando miséria onde deveria haver prosperidade e instabilidade onde a paz deveria reinar.
No entanto, a reta razão, iluminada pela Doutrina Social da Igreja, nos adverte contra a tentação de reduzir a complexidade humana a uma monocausalidade simplista. Se a pressão externa é um fardo pesado, ela não anula a agência interna nem exime a responsabilidade de quem detém as rédeas do poder. Há preocupações legítimas que não podem ser varridas para debaixo do tapete da retórica anti-imperialista. Como conciliar a imagem de uma Venezuela “substancialmente livre”, sem moradores de rua ou viciados, com a realidade de milhões de venezuelanos que emigraram em condições precárias, buscando em terras estranhas o que não encontram em casa? A dignidade da pessoa humana não se garante apenas com acesso a bens básicos, mas com a liberdade de expressão, a participação política genuína e a transparência nas contas públicas.
É aqui que as fissuras no alicerce se tornam evidentes. O controle sobre a informação oficial, que desqualifica a totalidade da mídia ocidental, e a admissão de que “nunca será possível descobrir o resultado real” de eleições tão cruciais como a de 2024, são golpes diretos na veracidade, virtude cardeal para a vida comum. A democracia, para ser mais do que um vocábulo vazio, exige escrutínio, contraditório e a capacidade dos cidadãos de fiscalizar quem os governa. Quando o Estado, sob o pretexto de defender-se de inimigos externos, erige-se como o único intérprete da realidade, ele se afasta do princípio da subsidiariedade, esmagando os corpos intermediários da sociedade e transformando o “povo” em “massa”, como advertia Pio XII. A crítica à estatolatria, tão cara a Pio XI, encontra ressonância nesse cenário, onde o poder centralizado tenta absorver todas as esferas da existência.
A sanidade, como Chesterton nos lembraria, muitas vezes reside em aceitar a complexidade do real, em vez de se render à loucura lógica das ideologias que buscam explicações únicas para fenômenos multifacetados. A própria tese reconhece que as sanções “geram ativamente corrupção”. Mas qual é a estratégia concreta para combater essa corrupção interna? Quem se beneficia desses desvios? A justiça exige que a responsabilização não seja seletiva, mas que alcance todos os que, por ação ou omissão, lesam o patrimônio comum. A ausência de um plano econômico de longo prazo que supere a quase total dependência do petróleo, por sua vez, lança dúvidas sobre a sustentabilidade dos avanços sociais, sugerindo que a base material do “projeto bolivariano” permanece vulnerável e desequilibrada.
Portanto, o Polemista Católico não pode endossar uma narrativa que, ao defender um projeto político contra a agressão externa, negligencia os pilares da justiça e da veracidade internamente. Condenamos, sim, a crueldade das sanções que afligem o povo venezuelano e a ingerência externa que desestabiliza nações soberanas, pois contrariam a solidariedade e a legítima autodeterminação. Mas, com a mesma firmeza, condenamos a opacidade eleitoral, a restrição do espaço cívico e a ausência de plena prestação de contas que impedem a florescência de uma liberdade ordenada. A caridade não pode ser pretexto para a injustiça, nem a defesa da pátria, para a supressão da verdade.
A Venezuela clama por mais do que resistência. Clama por uma ordem justa que não se limite a distribuir bens materiais, mas que edifique a confiança, respeite a palavra dada, garanta a participação autêntica e combata a corrupção em todas as suas frentes. O caminho para a verdadeira soberania e o bem da cidade reside na integridade moral e na coragem de olhar para dentro, mesmo quando as ameaças vêm de fora.
Fonte original: Brasil 247
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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