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Unger, Progressismo e o Vazio de Projetos: Uma Crítica Católica

Unger critica progressismo: vazio de projetos, 'humanização do inevitável'. Coluna une tese à Doutrina Social da Igreja. Busca inovação, construção concreta para futuro digno.

🟢 Análise

A crítica de Roberto Mangabeira Unger ao progressismo contemporâneo não é um lamento nostálgico, mas um bisturi que incide sobre uma ferida profunda: a ausência de um projeto de criação e inovação capaz de mover a história. O professor de Harvard observa que muitos dos que se dizem vanguardistas se tornaram meros "humanizadores do inevitável", gestores de uma ordem que deveriam questionar, aceitando o tabuleiro dado em vez de propor novas regras e peças. A América Latina, pródiga em retórica revolucionária, mas falha em modelos de desenvolvimento sustentáveis, serve como laboratório amargo para essa tese. A realidade de metade da população brasileira no setor informal, ou a Venezuela que, segundo o próprio Chávez, só conseguiu "romper a relação colonial" sem construir nada de novo, são atestados dramáticos dessa falência.

Unger acerta ao identificar o vazio de uma certa esquerda que, apega-se à "financeirização com a pobreza", distribuindo migalhas enquanto o capital se concentra e a economia real definha. Esse cenário é a negação de uma ordem justa que a Doutrina Social da Igreja sempre advogou. Onde está a propriedade difusa, os corpos intermediários que promovem a solidariedade e a subsidiariedade, o salário familiar que liberta o homem para além da mera subsistência? A crítica aos "gênios reprimidos" do povo e a uma educação que molda jovens brasileiros para serem "estudantes franceses do século XIX" aponta para uma falta de atenção às vocações reais e à capacidade criativa inerente às comunidades. É um eco da advertência de Pio XI contra a estatolatria e a massificação, que sufoca as iniciativas da sociedade civil em nome de um Estado provedor ineficaz.

Contudo, a análise de Unger, em seu ímpeto demolidor, corre o risco de desconsiderar preocupações legítimas. Reduzir a política identitária a uma "distração" é ignorar que, muitas vezes, as identidades são o lócus concreto de injustiças estruturais profundas – raciais, de gênero, sociais – que clamam por justiça. A "humanização do inevitável", embora insuficiente como projeto final, pode ser um passo caridoso e necessário para aliviar sofrimentos imediatos e construir as bases de confiança que permitem avanços mais ousados. Não se trata de endossar o culto à identidade em detrimento da unidade, mas de reconhecer a verdade devida a cada pessoa em suas circunstâncias, como pressuposto para uma verdadeira integração.

A saída, como a experiência cristã sempre nos ensinou, não reside na abstração estéril nem na rebeldia puramente negativa, mas na edificação laboriosa de realidades concretas. A proposta de Unger de focar na "pequena burguesia subjetiva" – indivíduos que aspiram à propriedade e à autonomia – encontra ressonância na Doutrina Social da Igreja sobre a importância da propriedade privada com função social e na valorização dos corpos intermediários. A vitalidade "anárquica" do povo, que ele tanto exalta, precisa ser canalizada pela virtude da laboriosidade e da responsabilidade, cultivando o gênio criativo em projetos tangíveis que respondam às necessidades reais, a partir da base, com autonomia e dignidade, respeitando a ordem e a autoridade legítima.

O erro não está em buscar a superação do presente, mas em fazê-lo sem um plano que seja, ao mesmo tempo, ambicioso e fincado na realidade humana e histórica. O Polemista Católico aprende com Chesterton que a loucura não é a ausência de razão, mas a razão levada às últimas consequências lógicas, porém divorciada da totalidade da experiência humana. Da mesma forma, uma crítica que não oferece um "projeto positivo de criação, construção e inovação" corre o risco de se tornar mais uma abstração, incapaz de tirar o navio do vazio, como Unger critica nos populismos.

A verdadeira transformação começa pela justiça enraizada na dignidade da pessoa, pela subsidiariedade que fortalece o pequeno e o próximo, e pela veracidade de um projeto que não teme nem a ousadia nem a paciência. É preciso, pois, não apenas denunciar o que falta, mas construir, pedra sobre pedra, a cidade que se deseja.

O futuro não será conquistado por aqueles que apenas descrevem a falência, mas por aqueles que se atrevem a edificar a esperança.

Fonte original: racismoambiental.net.br

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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