No complexo terreno da política, onde as lealdades são postas à prova e os ventos da conveniência podem soprar forte, a distinção entre princípio e puro pragmatismo é uma linha por vezes tênue. Em Várzea do Poço, na Bahia, essa linha foi recentemente testada. Ali, o prefeito Dr. Everson, filiado ao União Brasil, um partido de oposição ao governo estadual, fez soar sua crítica ao líder de sua própria legenda, ACM Neto, por uma suposta “desconsideração” às lideranças municipais. No mesmo fôlego, o prefeito elogiou o governador Jerônimo Rodrigues (do campo adversário) por sua postura de “diálogo institucional” e “compromisso efetivo” com os municípios, sinalizando uma possível reorientação política.
Não há dúvida de que o diálogo respeitoso e a valorização das lideranças municipais são pilares essenciais para a boa governança. As prefeituras, como as instâncias mais próximas do cidadão, são a espinha dorsal da administração pública e a garantia de que as necessidades reais do “povo”, e não de uma mera “massa” abstrata, sejam atendidas. Pio XII já advertia sobre os perigos da massificação, que dissolve a particularidade e a voz própria das comunidades em prol de movimentos homogêneos. É, portanto, legítima a preocupação com a dignidade dos municípios e com o fluxo de recursos e atenção que garantam seu desenvolvimento.
Contudo, a busca por tal “diálogo” e “compromisso” não pode ser uma via para a instrumentalização da lealdade ou para a camuflagem de meras conveniências partidárias. A ausência da declaração exata de ACM Neto, que teria motivado a insatisfação de Dr. Everson, lança uma sombra de dúvida sobre a inteireza da justificativa. Sem o contexto completo, a crítica soa como um pretexto, um artifício narrativo para justificar um movimento tático já desenhado. Tal prática fere a virtude da honestidade, que exige clareza e transparência nas motivações públicas, especialmente quando se trata de um realinhamento que pode frustrar as expectativas dos eleitores que depositaram sua confiança numa bandeira política específica.
A Doutrina Social da Igreja, particularmente através de Pio XI e o princípio da subsidiariedade, ensina que as instâncias superiores devem apoiar as inferiores, jamais absorvê-las ou anular sua autonomia. O Estado, em sua grandeza, deve servir aos municípios, fortalecendo-os, e não coagindo-os a aderir a um projeto político-partidário específico sob pena de ostracismo ou privação de recursos. Quando a cooperação se torna moeda de troca por adesão, a justiça política é comprometida, e a vitalidade dos corpos intermediários – partidos, associações, comunidades – é esvaziada de seu sentido mais profundo. O “compromisso efetivo” do governo estadual deveria estender-se a todos os municípios por dever de ofício, e não apenas àqueles que se inclinam a seu favor.
Chesterton, com seu aguçado senso de paradoxo, certamente notaria a ironia: busca-se diálogo e respeito onde se presume que não há, ao mesmo tempo em que se pode estar minando a lealdade e a clareza de posições dentro do próprio campo político. A sanidade da vida pública não reside em alinhamentos fluidos conforme a maré do poder, mas na firmeza dos princípios que dão substância à representação. Não é o acaso de um “movimento mais amplo de reacomodação política” que deve guiar as decisões, mas a consciência clara do dever para com o bem da comunidade, com os meios lícitos e a verdade como bússola.
É preciso que a ação política seja mais do que um cálculo frio de vantagens. A busca por recursos e a garantia de projetos para o município, por mais premente que seja, não pode justificar uma dissimulação moral. O eleitorado merece saber se a “sinalização de apoio” é um gesto de genuína conversão de princípios ou uma mera transação de influência. A verdadeira edificação da cidade, afinal, não se faz com alicerces de conveniência, mas com a solidez da verdade e a integridade dos compromissos.
Fonte original: Jornal Grande Bahia (JGB)
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.