Um manto de proteção, para ser eficaz, não pode ter furos nem ser tão pesado a ponto de esmagar o corpo social que busca abrigar. O Ministério da Saúde, em sua louvável ânsia de proteger a nação, anunciou para 2020 uma vasta e ambiciosa rede de campanhas de vacinação. De um lado, a ampliação da imunização contra a gripe para quem tem a partir dos 55 anos, alargando o público-alvo para expressivos 67,7 milhões de pessoas. De outro, duas campanhas de sarampo para faixas etárias específicas, a expansão gradual da vacinação de rotina contra a febre amarela para todos os municípios, com a introdução de uma dose de reforço aos quatro anos, e uma campanha nacional contra a poliomielite e multivacinação. A intenção de cobrir mais e melhor é inegavelmente boa.
Contudo, a realidade de um país continental como o Brasil impõe uma questão central que transcende a boa-fé das intenções: a capacidade logística e orçamentária do Sistema Único de Saúde (SUS) para gerenciar um aumento tão significativo e complexo de intervenções simultâneas. O risco não é meramente burocrático, mas profundamente moral. A ambição centralizada, desacompanhada de um planejamento robusto e de recursos adequados para a ponta, pode transformar uma iniciativa proativa num desafio de difícil gestão, minando a confiança pública e deixando descobertos justamente aqueles que mais necessitam da proteção.
Aqui, a Doutrina Social da Igreja, longe de ser uma abstração teórica, oferece um discernimento essencial. O Papa Pio XI, em sua crítica à “estatolatria”, já advertia contra a ilusão de que o Estado central detém a capacidade de tudo planejar e resolver, sem considerar as realidades e as capacidades dos corpos intermediários. O princípio da subsidiariedade — que exige que a esfera superior não esmague nem suplante o que pode ser realizado pela inferior, mas a ajude e apoie — é vital. A saúde pública não se faz apenas com diretrizes emanadas da capital, mas com a robustez de cada posto de saúde, a diligência de cada equipe e a capacidade de cada município em tecer, nó a nó, essa malha capilar de proteção.
A justiça exige que o direito à saúde não seja apenas formal, mas real. Isso significa garantir que os recursos (humanos, materiais, vacinas e financeiros) sejam alocados de forma equitativa e eficiente, especialmente para as populações em áreas remotas ou com menor acesso a serviços de saúde. Uma campanha que sobrecarrega os profissionais e esgota os insumos em uma região, enquanto em outras a adesão é baixa por falta de informação clara, não cumpre seu desígnio de justiça distributiva. A veracidade, por sua vez, torna-se crucial na comunicação de mudanças como a do reforço da vacina de febre amarela. Sem uma explicação transparente e cuidadosa, a oscilação nas recomendações pode alimentar a desconfiança e a hesitação vacinal, um dano que leva tempo e exige grande esforço para ser reparado.
A questão do sarampo, com suas campanhas reativas para grupos específicos, também ilumina a necessidade de uma laboriosidade constante na atenção primária. A dependência excessiva de “forças-tarefa” emergenciais revela lacunas na vacinação de rotina e na vigilância epidemiológica, que deveriam ser a base sólida de qualquer política de saúde. O verdadeiro compromisso com o destino comum da nação passa por fortalecer o que está perto, dar autonomia e apoio àqueles que operam na linha de frente, e não apenas pelo anúncio grandioso de metas centralizadas.
A intenção de imunizar é virtude; a capacidade de executar essa intenção é o teste de sua seriedade. O juízo reto exige discernimento para não confundir o planejamento ambicioso com a efetividade da entrega. O valor de uma política de saúde pública não se mede pela grandeza de seus anúncios, mas pela solidez de sua realização. Para que a nação seja realmente protegida, é preciso mais do que um calendário: é preciso um compromisso com a realidade, tecendo a proteção com fibra, suor e uma inteligência que respeite a dignidade de cada cidadão e a capacidade de cada comunidade. O maior bem é o que se concretiza, não o que apenas se idealiza.
Fonte original: Agora São Paulo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.