No fervor das ruas e nos auditórios vibrantes de São Paulo, mais de novecentos estudantes secundaristas se reuniram para o 30º Congresso da UMES. O tema, “Educação é Soberania: o Império não dita o nosso país”, parece à primeira vista um brado legítimo pela dignidade da nação. Mas, sob o manto dessa premissa, esconde-se uma retórica que confunde o vigor da juventude com a paixão partidária, e a defesa da educação com o embate eleitoral.
É inegável que a juventude tem razões sólidas para erguer sua voz. A precarização das escolas estaduais, a luta por um investimento justo que não veja a tesoura de cortes bilionários pesar sobre o futuro dos alunos, e a garantia de acesso digno ao ensino técnico e universitário são bandeiras de justiça que ressoam na consciência de todo cidadão. Estas são preocupações reais, que demandam um olhar atento e soluções concretas da esfera pública.
Contudo, quando essa legítima indignação é instrumentalizada por uma linguagem que reduz a complexidade da política a uma caricatura de “fascismo” e “imperialismo”, a causa da educação é apequenada. Ouvir líderes estudantis bradar que “derrubaram o Bolsonaro e o colocaram atrás das grades” ou que buscam “derrotar o fascismo nas urnas” ao mirar em figuras políticas específicas, não é uma defesa da soberania; é a transfiguração de uma pauta educacional em palanque eleitoral. A veracidade exige que se distinga a crítica legítima da calúnia, a divergência política da qualificação extremista. E a humildade nos lembra que nenhum movimento, por mais nobre que seja seu ponto de partida, pode arvorar-se em definidor único do bem e do mal, do patriota e da “corja bolsonarista”, sem cair na soberba ideológica.
A Doutrina Social da Igreja sempre defendeu a importância dos corpos intermediários – as associações livres, as comunidades, os sindicatos, e, sim, as entidades estudantis – como expressões vitais da subsidiariedade. Eles são os pulmões da sociedade civil, capazes de dar voz às necessidades específicas. Mas quando estes corpos se tornam meros ecoadores de uma agenda partidária, perdendo sua autonomia e transformando a pauta educacional em pretexto para a “derrota nas urnas” de adversários, inverte-se a reta ordem dos bens. O fim primário de uma entidade estudantil é o bem dos estudantes e da educação, não a ascensão ou queda de governos. A defesa do Brasil e da “soberania” não pode ser sequestrada por um grupo que se julga o único portador da bandeira verde e amarela, estigmatizando quem pensa diferente.
Essa estratégia, ao invés de construir uma “ampla frente democrática” pela educação, ergue muros de exclusão. Afasta pais, educadores e estudantes que, embora partilhem das mesmas angústias pela qualidade do ensino, recusam o engajamento num discurso que sataniza e simplifica. A polarização excessiva, a atribuição de rótulos extremos, e a pretensão de que a solução para os problemas educacionais passe primariamente pela “derrota do bolsonarismo” e não por propostas pedagógicas concretas, por um currículo transparente, por conselhos escola-família-comunidade efetivos, desvia o foco do que é essencial. A educação, em sua essência, visa a formação integral da pessoa, não a instrumentalização do jovem como massa de manobra para disputas político-partidárias.
O polemista inglês G.K. Chesterton, com sua perspicácia para desvelar as loucuras lógicas das ideologias, advertiria que, ao clamar por uma “nova fundação do mundo” baseada em uma retórica de ódio e exclusão, a UMES se afasta da sanidade. A vida real, a formação do caráter, a busca pela verdade e pela beleza, a construção de uma sociedade justa e fraterna não se fazem com gritos de guerra eleitorais, mas com o árduo e paciente trabalho de semear e cultivar.
A verdadeira soberania de uma nação se mede pela solidez das raízes de sua educação, e não pela turbulência efêmera de seus palanques.
Fonte original: Hora do Povo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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