Há rios que nascem de um pequeno fio d’água, quase imperceptível, para depois se tornarem caudalosos e redefinirem a paisagem. A história da UFSCar em Sorocaba, que agora celebra seus vinte anos, evoca essa imagem de uma nascente que brotou em 2006 com quatro cursos, cresceu até oferecer dezesseis graduações e formou mais de cinco mil profissionais. É uma marca significativa, testemunho do impulso de interiorização das universidades federais e de um esforço meritório de levar o ensino superior público a regiões estratégicas. A produção de EPIs na pandemia, o desenvolvimento de tecnologia assistiva para atletas paralímpicos, a formação de professores essenciais para a rede regional, e a aposta em campos de ponta como a inteligência artificial, são marcos que a própria instituição, com razão, aponta como provas de um impacto positivo e tangível.
Todavia, a força de um rio não se mede apenas pela sua correnteza ou pela largura de seu leito, mas por sua capacidade de irrigar de forma equitativa toda a várzea, sem deixar terras sedentas ou criar pântanos estagnados. É aqui que o tom celebratório deve ceder lugar a um discernimento mais profundo, a uma avaliação que a Doutrina Social da Igreja sempre exigiu: a justiça. Pois, como nos lembra Pio XI sobre a ordem social, a justiça não reside apenas na criação de estruturas, mas na sua reta aplicação para o benefício integral do homem e da comunidade. O “misticismo” inicial, relatado pela própria diretora, sobre a gratuidade da UFSCar, não é um detalhe pitoresco, mas um sintoma eloquente de que a informação e o acesso, por vezes, não chegam às camadas mais vulneráveis da população. A pergunta incômoda persiste: essa nascente de conhecimento conseguiu, de fato, irrigar as parcelas mais marginalizadas da sociedade sorocabana ou suas águas mais límpidas beneficiaram predominantemente os que já se encontravam à margem do rio?
A aposta em bacharelados como ciências de dados e inteligência artificial, embora louvável em termos de inovação e alinhamento com o futuro, exige uma reflexão sobre a ordem dos bens. Qual a missão primária da universidade em um contexto regional? É formar uma elite tecnológica desvinculada das necessidades mais básicas da população, ou é integrar a inovação a um projeto mais amplo de desenvolvimento humano e social que promova a propriedade difusa do saber e a justiça distributiva das oportunidades? O risco é que, ao mirar as estrelas da alta tecnologia, se percam de vista os canteiros que clamam por irrigação. A verdadeira subsidiariedade implica fortalecer os corpos intermediários da sociedade, garantindo que a educação seja um motor de ascensão para todos, e não um novo muro invisível.
A universidade, como corpo intermediário vital entre o indivíduo e o Estado, tem a responsabilidade de uma transparência radical. Isso não significa apenas prestar contas orçamentárias, mas tornar visíveis e compreensíveis os critérios de acesso, a efetividade dos programas de permanência estudantil — cruciais para quem vem de longe ou de classes mais baixas —, e o impacto social de suas pesquisas. O caso da desinstitucionalização da saúde mental em Sorocaba, impulsionada por estudos da UFSCar, é um exemplo notável de como a pesquisa pode transformar políticas públicas. Mas a veracidade exige que se questione também o acompanhamento pós-reforma: como a universidade contribuiu para garantir que os indivíduos afetados tivessem a continuidade e a qualidade de atendimento asseguradas, longe dos manicômios e longe do abandono?
A grandiosidade de uma instituição pública de ensino superior não se mede apenas em números de cursos e diplomas, mas na sua capacidade de ser um agente de integração, de solidariedade real, de transformação que reverbera em cada canto da sociedade. Que a UFSCar Sorocaba celebre seus vinte anos, sim, mas com a magnanimidade de olhar para frente e para os lados, questionando-se constantemente: onde as minhas águas ainda não chegam? Quais solos ainda esperam a irrigação do saber para florescer em plenitude?
A universidade que realmente serve ao bem da cidade é aquela que, ao invés de apenas enumerar seus feitos, questiona a si mesma sobre os caminhos que ainda precisam ser abertos para que o rio de seu conhecimento alcance e fecunde toda a terra.
Fonte original: globo.com
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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