A cada nova primavera acadêmica, a Universidade Federal de Minas Gerais floresce com projetos e visões que prometem adubar o futuro do país. O novo reitor, Alessandro Fernandes Moreira, assume as rédeas de uma instituição prestes a celebrar seu centenário com a promessa de “inovar, incluir e cuidar”. E a ambição não é pequena: fala-se em um novo campus em Betim, dedicado à tecnologia e inteligência artificial, na criação de cursos de graduação e pós-graduação sobre mudanças climáticas e desastres em parceria com o Corpo de Bombeiros, na expansão do processo seletivo seriado para outras cidades e em projetos de sustentabilidade energética como o “Oasis”. São iniciativas que, em sua essência, miram um legítimo impacto social e respondem a demandas urgentes da sociedade brasileira.
Não se pode negar o mérito na busca por relevância e na proatividade em endereçar desafios contemporâneos. A UFMG tem um histórico de feitos notáveis, como o desenvolvimento da vacina SpiN-TEC e a criação do Centro Nacional de Vacinas, a qualificação em rankings internacionais e sua atuação em tragédias como as de Mariana e Brumadinho. A universidade, como um dos pilares do ensino e da pesquisa no país, tem o dever de se adaptar, de crescer e de estender sua influência para além dos muros de sua sede, servindo à comunidade mineira e ao Brasil. A proposta de formar quadros para a prevenção de desastres e o enfrentamento das mudanças climáticas, por exemplo, é um chamado à responsabilidade coletiva diante de um cenário de fragilidade ecológica.
Contudo, a grandeza das aspirações não pode ofuscar a crueza da realidade material. O próprio reitor, ao mesmo tempo em que anuncia esse leque de expansões, admite sem rodeios que a questão orçamentária “ainda é muito séria” e que a UFMG “não tem o orçamento que precisa”. É aqui que a reta razão e a prudência, virtude que ordena o intelecto e a vontade para o agir bem em circunstâncias concretas, devem intervir. Propor a edificação de novos e complexos empreendimentos sem um plano claro, detalhado e publicamente transparente de financiamento sustentável para a sua criação e manutenção contínua, equivale a construir casas sem antes verificar a solidez dos alicerces ou a disponibilidade de tijolos e cimento.
O risco de uma expansão desordenada é a diluição, não a multiplicação da excelência. A demanda por um novo campus em Betim, vinda de esferas externas como o MEC e a prefeitura local, precisa ser avaliada sob o prisma da subsidiariedade. O que está mais perto e já existe na UFMG – seus cursos, sua infraestrutura, seus corpos docente e técnico-administrativo – tem primazia e deve ser solidificado antes de se aventurar em frentes que podem sobrecarregar o sistema. A justiça, aqui, exige que os recursos, já escassos, sejam alocados de modo a garantir a qualidade do que já existe e a viabilidade do que se propõe, sem criar “elefantes brancos” ou sacrificar a excelência em nome da mera expansão geográfica ou temática. A experiência de outras instituições brasileiras, com campi que operam aquém do esperado por falta de recursos e pessoal, deve servir de advertência.
É imperativo que a UFMG detalhe como pretende sustentar financeiramente cada uma dessas novas iniciativas, estabelecendo uma clara hierarquia de prioridades e um cronograma realista de implementação. Como se dará o financiamento contínuo para o corpo docente e técnico-administrativo dos novos cursos? Qual a análise de custo-benefício de projetos ambiciosos como o “Oasis” de autossuficiência energética, versus a alocação desses recursos para necessidades mais prementes na infraestrutura básica ou no apoio à permanência estudantil? A responsabilidade para com a comunidade acadêmica e com os contribuintes exige que as intenções, por mais nobres que sejam, sejam acompanhadas de um cálculo moral e financeiro transparente.
A vitalidade de uma universidade centenária não se mede apenas pela quantidade de novos projetos que anuncia, mas pela sabedoria com que os gerencia e pela solidez com que honra seus compromissos. A verdadeira grandeza da UFMG residirá não na vastidão de suas promessas, mas na firmeza de seus alicerces e na veracidade de seus frutos.
Fonte original: Jornal Estado de Minas | Not�cias Online
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.