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Programação Esportiva: Duplicidade e a Verdade Pública na TV

Programação de TV mostra o mesmo jogo na BAND e SPORTV. A duplicidade gera dúvidas sobre a clareza da informação. Debate-se o dever de transparência dos veículos e o direito do espectador à verdade.

🟢 Análise

O esporte, que por sua natureza exige um embate claro e regras fixas, quando transposto para a tela de televisão, deveria manter a mesma nitidez em sua apresentação. É um imperativo de honestidade. Contudo, ao perscrutar a grade de programação que se anuncia para um sábado em canais como a BAND e o SPORTV, descobre-se uma mancha na limpidez esperada: a mesma partida, “Al-Okhdood x Al-Nassr”, programada para ser exibida simultaneamente em ambas as emissoras às 14h45. Essa duplicidade não é um mero detalhe, mas um nó que embaraça o fluxo da informação e impõe uma legítima interrogação à acurácia do que é prometido ao espectador.

A ficha factual, em sua aridez necessária, lista horários e confrontos, desde as reprises da madrugada até os embates ao vivo da tarde e noite. Há futebol internacional, lutas marciais, programas de revista esportiva e até pesca. Uma vasta oferta que, em princípio, serve ao lazer do povo e à difusão do esporte. Ocorre que o consumidor de mídia, em sua busca por entretenimento ou informação, presume que a “programação confirmada” o guiará com segurança. Se há uma sobreposição tão explícita, sem qualquer nota explicativa, a clareza da comunicação pública fica comprometida. O espectador, particularmente o assinante da TV paga, tem o direito de saber se paga por um conteúdo que encontrará idêntico e no mesmo instante na TV aberta, ou se a fonte da informação, ao replicar a grade, cometeu um deslize.

A Doutrina Social da Igreja, ao sublinhar a importância da liberdade ordenada e da verdade pública, recorda que a comunicação não é um campo neutro, isento de deveres. Pio XII, em sua encíclica Miranda Prorsus, já advertia para a responsabilidade dos meios de comunicação em formar a opinião pública com base na verdade, evitando a confusão e a manipulação. Aqui, o problema não é de manipulação direta, mas de uma negligência na curadoria da informação que, por omissão, gera ruído e incerteza. A virtude da veracidade não se limita a não mentir; estende-se ao dever de comunicar com a maior clareza possível, especialmente quando se trata de dados que orientam a escolha do público.

Pode-se argumentar que a sobreposição talvez se justifique como uma estratégia comercial legítima de transmissão conjunta, o popular simulcasting, visando maximizar o alcance do evento. Ou que a fonte da notícia é apenas um agregador, não um auditor das grades de programação alheias. Essas são possibilidades. Mas, se tal for o caso, a falta de uma qualificação explícita da natureza dessa transmissão conjunta falha em um dever de prudência e honestidade para com o público. Um simulcasting, para ser uma virtude de alcance, não pode ser um vício de opacidade. Redundâncias não esclarecidas podem fazer o espectador questionar a utilidade da lista, a credibilidade da fonte e até o valor de seu investimento em canais que se propõem a uma oferta exclusiva.

A verdade, mesmo nos pormenores de uma grade de televisão, exige que se distinga o que é efetivamente uma falha na coleta ou reprodução dos dados do que é uma estratégia comunicativa que deveria ser explicada. A transparência não é um luxo, mas um requisito para a formação de um povo consciente e para a edificação de uma vida social ordenada. Ignorar tais inconsistências em nome de uma reprodução irrestrita é desconsiderar a dignidade do receptor da mensagem, que merece ser tratado não como uma massa amorfa a ser informada, mas como um indivíduo capaz de discernir e escolher com base em dados fidedignos.

O cuidado com a apresentação da realidade, por mais prosaica que ela possa parecer em uma lista de jogos, é um reflexo do respeito pela razão humana e pela ordem social. Se o pequeno dado já se mostra embaraçado, que dizer das grandes narrativas? Uma programação esportiva é um microcosmo da comunicação em geral: deve ser um convite à clareza e à retidão, não um labirinto de dúvidas.

A transparência é a primeira regra do jogo; sem ela, todo placar é incerto, e todo espectador, lesado.

Fonte original: Paraíba Online

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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