A grade de programação da TV Brasil para a semana de 13 a 19 de abril de 2026, com sua prometida mistura de jornalismo ao vivo, cultura, educação, entretenimento infantil e esporte, chega como um cardápio vistoso à mesa do público. Aos olhos desavisados, a lista de categorias e horários pode até sugerir uma panaceia televisiva, um banquete de diversidade pronto a nutrir o espírito cívico e cultural da nação. Mas, como bem ensina a experiência, a mera enumeração de ingredientes não garante a qualidade do prato, nem a nutrição que dele se espera.
A publicidade institucional, em sua ânsia de promover, muitas vezes confunde o desejo com a realidade, a intenção com o feito. Falar em “diversidade” e “relevância” sem descer ao detalhe da qualidade intrínseca do conteúdo, da sua profundidade crítica ou da real representatividade das vozes ali presentes, é um artifício retórico que obscurece mais do que ilumina. Uma transmissão pontual do basquete feminino ou uma edição especial sobre o Dia dos Povos Indígenas são, sem dúvida, dignas de nota, mas podem se converter em meras notas de rodapé numa grade vasta, incapazes de comprovar um compromisso estrutural com a verdadeira pluralidade. A veracidade, pilar de qualquer comunicação pública, exige que a emissora vá além da vitrine e mostre o que de fato está à venda.
Ora, um serviço público de radiodifusão não pode se comportar como um comerciante a empilhar rótulos. Ele possui um mandato superior, que é o de servir ao povo, e não meramente abastecer a massa de consumidores com conteúdo passivo, como se o espectador fosse um recipiente vazio a ser preenchido. Pio XII já advertia sobre a distinção entre povo e massa: o povo é sujeito de direitos e deveres, participa ativamente; a massa é objeto, manipulável, passiva. A EBC, enquanto veículo estatal, tem o dever de elevar, formar, instigar o debate crítico, e não apenas replicar o que a mídia comercial já faz, ou pior, camuflar a ausência de substância sob o manto da “diversidade” categórica.
A justiça social, outro pilar da Doutrina Social da Igreja, clama por transparência e equidade na alocação dos recursos públicos e do tempo de antena. Quais são os critérios objetivos para a seleção dos temas? Como a grade da TV Brasil garante que não apenas categorias genéricas são atendidas, mas que vozes minoritárias e regiões negligenciadas encontram um espaço autêntico e não meramente simbólico? É preciso que os corpos intermediários da sociedade — associações, famílias, comunidades — tenham real participação na construção e avaliação desse conteúdo, e não apenas recebam, já pronto, o que a centralidade da produção decide veicular. A subsidiariedade exige que o que pode ser feito mais perto do povo seja feito, e que o Estado não esmague as iniciativas locais, mas as promova.
A verdadeira loucura do nosso tempo, como Chesterton bem notaria, é a insistência em manter a fachada quando os alicerces estão ocos. Pensar que listar “jornalismo, cultura, educação” equivale a entregar jornalismo de qualidade, cultura profunda e educação cívica é uma deformação da razão. A abstração de um catálogo não se traduz automaticamente na riqueza concreta de uma programação que inspira e transforma. É preciso substância, não só silhueta.
Para que a TV Brasil cumpra seu vocacionado dever, a auto-promoção precisa ceder lugar à auto-avaliação rigorosa. Não bastam as intenções declaradas; é preciso apresentar métricas claras de desempenho, de alcance, de engajamento, de impacto social e cultural. A responsabilidade de um órgão público é inegociável, e ela se mede pela entrega de valor real ao contribuinte, não pela simples ocupação de tempo. Que se invista em campanhas belas e verdadeiras, não apenas naquelas que vendem uma imagem vazia.
O serviço público de radiodifusão é um bem da cidade que exige mais do que uma grade de nomes polidos. Exige uma ordem justa em sua concepção, uma veracidade em sua execução e uma laboriosidade constante em seu aprimoramento, para que o que se anuncia corresponda, de fato, ao que edifica.
Fonte original: Institucional
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.