Uma praça pública, por natureza, é um lugar de encontro e diversidade, onde vozes múltiplas se cruzam e, por vezes, se confrontam, mas sempre sob o sol da verdade comum. Quando um veículo de comunicação estatal se apresenta como a nova ágora digital, prometendo “programação diversificada” e “jornalismo isento e objetivo”, a expectativa é que essa praça seja de fato aberta, e não um púlpito onde poucos pregam para muitos, ou pior, um espelho onde a própria instituição se admira. A TV Brasil, ao divulgar sua grade para a semana de 30 de março a 05 de abril de 2026, oferece uma vitrine de intenções que merece escrutínio à luz de sua vocação pública.
Os fatos mostram uma programação variada: blocos infantis, jornalismo ao vivo, cultura, entretenimento, e notáveis transmissões de esportes femininos, como o Campeonato Brasileiro de Futebol e a Liga de Basquete. São louváveis os esforços para dar visibilidade a modalidades frequentemente negligenciadas e para oferecer conteúdo educativo para crianças, estimulando valores como amizade e responsabilidade. Contudo, a veracidade dessas declarações genéricas começa a vacilar quando a grade inclui programas como “Na Mesa com Datena” e “DR Com Demori”. Personalidades midiáticas com perfis de opinião pública já estabelecidos, embora atraiam audiência, colocam em cheque a pretensa “isenção e objetividade” do jornalismo de um canal que se declara público. A emissora estatal não pode se dar ao luxo de confundir popularidade com imparcialidade, nem de diluir seu mandato em meras repetições de fórmulas comerciais.
A missão de um veículo de comunicação estatal é mais elevada. Como alertava Pio XII, o Estado deve servir ao povo, e não manipular a massa. Isso exige uma veracidade radical em sua comunicação e uma justiça intransigente na alocação de seus recursos e na representação das diversas correntes de pensamento. A alegada “diversidade” precisa se traduzir em pluralidade de perspectivas e profundidade temática, não apenas em variedade de formatos. A inclusão de um programa de cunho religioso, como “Eu Não Desisto de Você” em horário de destaque, por exemplo, deve ser acompanhada de uma clareza cristalina sobre os critérios editoriais para tal escolha, assegurando que não haja proselitismo e que o espaço para a dimensão espiritual da vida humana se dê de forma respeitosa à laicidade do Estado e à pluralidade de crenças, sem favorecimentos. O serviço público não é o palco para uma religião, mas o foro para o diálogo das consciências.
É aqui que se manifesta um paradoxo moderno, digno de um Chesterton: a mesma lógica que promete “qualidade” e “diversidade” é a que se recusa a detalhar o conteúdo específico dos blocos infantis ou das sessões de cinema, ou a explicar as métricas de avaliação desses atributos. Cria-se uma linguagem promocional que esvazia os conceitos de seu sentido prático. Como pode o público avaliar a qualidade educativa se não conhece o material? A transparência, nesse contexto, não é um mero capricho burocrático, mas uma exigência ética para que a instituição estatal cumpra seu papel de mídia responsável, como preconizava o Magistério.
O Estado, ao manter uma emissora pública, assume o grave dever de não transformar o éter em megafone de seus governantes ou em plataforma para interesses particulares, sejam eles políticos, comerciais ou confessionais. A TV Brasil deveria ser uma autêntica “cidade como sala de aula cívica”, fomentando o debate, a cultura e a educação com critérios que superem a superficialidade do entretenimento puro e a partidarização velada. Urge que a emissora adote mecanismos robustos de escrutínio público e que suas declarações de “isenção” e “qualidade” sejam comprovadas por ações editoriais concretas, capazes de resistir à tentação da estatolatria, que tanto preocupava Pio XI.
A tarefa da TV Brasil é forjar uma comunicação que eleve o debate, informe com rigor e eduque para a liberdade. Isso significa mais do que uma grade cheia; significa um compromisso inabalável com a verdade e com o bem da cidade, o destino comum de todos os brasileiros, representados em sua complexidade e não apenas em seus segmentos mais ruidosos. É preciso que a tela reflita a nação em sua riqueza e diversidade real, sem o filtro conveniente da autopromoção, para que o que se veicula seja verdadeiramente público e universal.
Fonte original: Institucional
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.