A receita para erradicar a tuberculose parece simples: seis meses de antibióticos, oferecidos gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde. No entanto, o receituário da esperança contrasta brutalmente com a dura realidade de Mato Grosso do Sul, onde os casos da doença avançam de forma persistente, a incidência cresce, as taxas de abandono do tratamento são alarmantes e a proporção de curados atinge seu menor patamar histórico. É um paradoxo cruel: a vida que se promete salvar segue ceifada, especialmente entre os mais vulneráveis.
Desde 2012, Mato Grosso do Sul viu os diagnósticos de tuberculose crescerem cerca de 54%, atingindo em 2023 o maior patamar recente de 1.662 casos, com projeções que indicam uma perpetuação do problema caso as políticas atuais não sejam substancialmente revistas. O Brasil, de sua parte, registrou em um ano um salto de 21% nos novos casos, chegando a quase 86 mil infecções. Onde reside, então, a falha? A questão não se resolve com a mera disponibilidade do tratamento, por mais louvável que seja a gratuidade no SUS. O problema reside em uma incapacidade estrutural de o sistema de saúde, isoladamente, transpor as barreiras sociais que mantêm a doença viva, em vez de contê-la.
Aqui, o diagnóstico vai além da medicina e atinge a substância da justiça social. São Tomás de Aquino nos lembra que a justiça não se contenta com a mera distribuição formal, mas exige que a cada um seja dado o que lhe é devido para que possa alcançar seu bem. Quando o Estado oferece o remédio mas ignora as condições de moradia, nutrição, segurança e o estigma que impede o paciente em situação de rua (47% de abandono), o privado de liberdade ou o indígena de concluir a terapia, a justiça é ferida. A tuberculose não é apenas uma doença infecciosa; ela é, para as populações marginalizadas, um sintoma gritante de desigualdade e de uma lacuna profunda na laboriosidade e responsabilidade de uma sociedade. Não basta disponibilizar; é preciso assegurar as condições para que a cura seja efetivada.
O Papa Pio XI, em suas encíclicas, já advertia contra a “estatolatria” e a redução da pessoa à massa, defendendo a subsidiariedade como princípio vital para uma ordem social orgânica. Uma política pública eficaz contra a tuberculose não pode ser apenas uma diretriz centralizada ou um pacote de comprimidos. Ela exige uma ação capilar, que fortaleça os corpos intermediários – a família, a comunidade, as associações locais – e integre políticas de moradia, alimentação e suporte psicossocial. A alta taxa de abandono (17% no MS, e bem maior entre os mais expostos) não é falha individual do paciente, mas um espelho da falha coletiva em oferecer um suporte humano integral. A verdadeira caridade impulsiona-nos a ir além da mera oferta, a nos inclinar sobre o ferido e lhe prover os meios para que se erga.
Um observador como Chesterton talvez apontasse a “loucura lógica” de um sistema que gasta fortunas em tratamento reativo enquanto negligencia o investimento preventivo e o apoio social que garantiriam a conclusão terapêutica. A promessa de eliminar a tuberculose até 2030, defendida pela OMS, soa como um ideal distante quando as projeções da Fiocruz indicam que as políticas atuais do Brasil não serão suficientes para tal. A ausência de um plano robusto que reconheça a tuberculose como um problema multifatorial, exigindo uma “reconstrução moral-cultural” de seus alicerces (como propõem os nossos capítulos sobre transparência curricular e conselhos escola-família-comunidade), é uma omissão grave.
O caminho para reverter essa chaga exige, portanto, um juízo reto e uma firmeza moral. Não se trata de abandonar o valioso trabalho biomédico, mas de incardi-lo em uma visão mais ampla. É preciso instituir uma rede de apoio que vá além do consultório, que alcance as condições de vida dos pacientes com a mesma diligência que oferece o medicamento. Fortalecer as comunidades, envolver as famílias e os agentes de saúde em uma cooperação orgânica, oferecendo moradia temporária, segurança alimentar e suporte psicossocial para os grupos mais vulneráveis. A saúde pública, nesse sentido, é também uma tarefa de recomposição do tecido social. A verdadeira vitória sobre a tuberculose só será alcançada quando o compromisso com a vida transcender o balcão da farmácia e reconstruir os alicerces de uma sociedade justa.
Fonte original: Jornal Midiamax
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.