Quando a nau da ordem internacional singra mares revoltos, é imperativo que o leme esteja nas mãos da justiça, e não na ânsia de quem confunde a força bruta com a razão de Estado. A exigência de Donald Trump, clamando que a Europa e a OTAN enviem navios de guerra ao Estreito de Ormuz sob a sombra de um “futuro muito ruim”, não é um mero alarme diplomático. É a reverberação de uma crise real: um quinto do petróleo mundial está retido, os barris escalam a preços alarmantes, e a estabilidade econômica global cambaleia. A interrupção do tráfego em Ormuz, vital artéria do comércio, é uma preocupação legítima que afeta a todos, da Ásia à Europa, passando pelas indústrias e pelos consumidores.
Contudo, não se pode confundir a urgência do problema com a legitimidade de suas causas. O bloqueio em Ormuz não é um desastre natural, mas a consequência direta de uma guerra unilateral contra o Irã, iniciada sem o aval do Congresso americano, e cuja justificação internacional permanece opaca. A ordem social não é um jogo de soma zero onde a força de um legitima a afronta aos princípios de direito. São Tomás de Aquino nos ensina que a justiça não é apenas a distribuição equitativa, mas a reta ordenação das coisas e das ações. Sem uma causa justa e uma autoridade legítima, a coerção de aliados para participar de um conflito cuja origem é questionável transfigura a cooperação em imposição, ferindo a liberdade ordenada das nações e a própria estrutura da aliança.
A Europa, pressionada a enviar “caça-minas, equipes de comandos e o que for necessário”, vê-se diante de um dilema amargo. Ameaças de retaliação comercial à Espanha por recusar bases, ou a censura ao Reino Unido por hesitar, expõem uma assimetria de poder perigosa. Alianças como a OTAN, embora baseadas em compromissos de defesa mútua, não podem ser instrumentos para arrastar membros a aventuras militares irresponsáveis. A subsidiariedade, princípio basilar da Doutrina Social da Igreja, nos recorda que as decisões devem ser tomadas no nível mais próximo e competente, respeitando a autonomia dos corpos intermediários – aqui, as soberanias nacionais – sem que o superior esmague ou use de coerção ilegítima.
Ainda mais inquietante é a dissonância entre a retórica e a realidade. A alegação de ter “destruído 100% da capacidade militar iraniana” desmorona diante dos relatos de ataques contínuos e da capacidade do Irã de negociar passagens seguras para a Turquia e a Índia, e de abastecer a China. A veracidade, um dever moral inegociável, é a âncora que impede a nau dos fatos de ser arrastada pela correnteza da conveniência. A oferta iraniana de passagem livre para nações não beligerantes, por mais complexa que seja a geopolítica, expõe uma via para a desescalada que a mera imposição militar parece ignorar, sublinhando que soluções diplomáticas devem preceder, e não suceder, a escalada do caos.
O caminho para a estabilidade no Golfo, e para a credibilidade das alianças ocidentais, não se trilha pela escalada ou pela chantagem. Exige-se, antes, a magnanimidade de reconhecer os próprios erros e a justiça de buscar soluções verdadeiramente multilaterais, ancoradas no direito internacional e na reta razão. Reconstruir a confiança passa por restabelecer a ordem jurídica, tanto interna quanto internacionalmente, e por um diálogo que respeite a soberania e os interesses legítimos de todas as partes, não apenas os do mais forte. Apenas assim a comunidade de nações poderá consolidar a paz, em vez de ser levada ao sabor das ondas de uma retórica belicosa e unilateral.
A nau da ordem internacional só encontra porto seguro quando guiada não pela força bruta, mas pela estrela da justiça e pela firmeza da verdade, luminares que não permitem naufrágios morais.
Fonte original: O Cafezinho
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.