A Mídia de Trump: Da “Reconfiguração” à Tentação do Controle

Trump alega "reconfigurar a mídia" em meio à crise do jornalismo. Analisamos como a retórica distorce fatos, ameaça a liberdade de imprensa e instrumentaliza o poder.

🟢 Análise

Um jardineiro que se vangloria de ter “reconfigurado” o bosque porque algumas árvores caíram e outras foram podadas, pode estar tanto celebrando a sua destreza quanto disfarçando a simples ação do tempo, das tempestades ou de forças alheias à sua vontade. A imagem veiculada pelo ex-presidente Donald Trump, intitulada “Presidente Trump está reconfigurando a mídia”, carrega essa mesma ambiguidade, mas com um peso moral e institucional muito mais grave do que a modesta metáfora campestre. Apresentar demissões em massa no The Washington Post, saídas de jornalistas da CNN e NBC, cortes de financiamento à NPR e à PBS, e acordos judiciais com ABC e CBS como um feito de “reconfiguração” presidencial é instrumentalizar a complexa dinâmica de uma indústria em crise para fins de autopromoção e controle narrativo.

Há, sem dúvida, uma preocupação legítima com a polarização crescente da mídia e a percepção de viés que corrói a confiança do público. As instituições jornalísticas enfrentam desafios reais de transparência e responsabilidade editorial, e o declínio financeiro da imprensa tradicional tem gerado reestruturações e demissões em larga escala, independentemente de quem ocupe a Casa Branca. Contudo, entre a observação dessas tendências estruturais e a reivindicação de ser o seu artífice direto, jaz um abismo de presunção e uma distorção perigosa da veracidade dos fatos. Acordos financeiros, como os citados com ABC e CBS, são frequentemente decisões estratégicas de negócios para evitar litígios custosos e prolongados, não necessariamente confissões irrefutáveis da totalidade das acusações de difamação ou manipulação.

A verdadeira questão não reside na existência de problemas na mídia — que são patentes e exigem justiça e honestidade de ambas as partes —, mas na intenção e no método empregados para supostamente “corrigi-los”. A sugestão de que licenças de emissoras deveriam ser “retiradas” por serem “97% contra” um político, e que isso ficaria “a cargo de Brendan Carr”, o presidente da Comissão Federal de Comunicações (FCC), transcende a crítica legítima e entra no campo da ameaça à liberdade ordenada. A FCC, enquanto agência reguladora, tem o mandato de garantir o uso do espectro público em prol do interesse comum, não de servir como um braço censor do poder executivo para silenciar vozes dissidentes ou inconvenientes. É uma tentativa de trocar a complexidade dos diálogos por um monólogo autorizado.

Pio XII alertava para a diferença crucial entre povo e massa: enquanto o povo é capaz de julgar e decidir por si, informando-se e discernindo, a massa é passível de manipulação e controle. Uma “mídia reconfigurada” por decreto presidencial, longe de servir ao bem da cidade, serve à ambição de um poder que busca eliminar o contraditório. A liberdade de imprensa, em sua dimensão mais essencial, é uma salvaguarda contra a tentação da estatolatria, ou no caso, de uma “presidentolatria” da informação, onde a verdade cede lugar à narrativa conveniente do governante. O campo imagético da construção, tão comum em nossos discursos, se inverte: em vez de edificar sobre os pilares da veracidade e da justiça, busca-se implodir o que está de pé para, talvez, erguer uma torre mais confortável para o próprio ego.

Chesterton, com sua perspicácia para desmascarar as loucuras lógicas do modernismo, talvez visse na retórica da “reconfiguração” uma patente falta de humildade diante do real. A realidade da mídia é multifacetada, orgânica e reage a forças muito mais amplas do que a vontade de um único indivíduo, por mais poderoso que seja. Reduzir essa complexidade a uma ação unilateral e vitoriosa é uma forma de pretensão que desconsidera a agência de inúmeros atores e as transformações históricas da própria indústria. É mais fácil reivindicar o controle sobre o que já se move do que enfrentar a verdadeira responsabilidade pela promoção de uma cultura de comunicação responsável e de ordem moral pública.

A defesa da liberdade de imprensa não é um salvo-conduto para o mau jornalismo, nem uma blindagem contra a crítica severa e a cobrança de responsabilidade. Mas a resposta a seus vícios jamais pode ser a subordinação ao poder político. A sociedade só prospera quando o fluxo de informações, mesmo com suas imperfeições inerentes, pode se dar de forma autônoma, sem o medo da retaliação ou da caneta controladora do Estado. Reconfigurar a mídia, em seu sentido mais elevado, é um trabalho constante da própria sociedade civil, de educação para o discernimento e de exigência de veracidade de todas as partes, e não a imposição de uma agenda por um presidente, ou ex-presidente, que se arroga o direito de ser o curador único da realidade.

Uma imprensa verdadeiramente livre e responsável, com todas as suas falhas, é o espelho que, por vezes, deforma, mas que jamais pode ser quebrado por quem não quer ver a própria imagem refletida.

Fonte original: Jornal Diário do Grande ABC

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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