A perplexidade que assola parte da base eleitoral do presidente Donald Trump, ao vê-lo engajado em uma guerra com o Irã depois de prometer evitar conflitos, não é mero sentimentalismo político; é o eco de uma contradição que atinge o cerne da responsabilidade política e da retidão moral. Quando um líder eleito sob o estandarte da não-intervenção se lança em uma “excursão” que já ceifou milhares de vidas e mergulhou o Oriente Médio em mais instabilidade, a palavra “traição” — como bem pontuou o comentarista Joe Rogan — adquire um peso incômodo. Não se trata apenas de uma disputa eleitoral, mas de um drama humano e moral.
A guerra não é um jogo de xadrez em que se movem peças sem consequência. As promessas de campanha, em particular aquelas que tocam a vida e a morte de nações inteiras, não são meros artifícios retóricos, mas compromissos que exigem uma fidelidade que transcende a conveniência. A Doutrina Social da Igreja sempre insistiu na gravidade do ato de declarar guerra, relegando-o a um último e extremo recurso, sempre sob a estrita condição de uma causa justa, proporção e perspectiva de sucesso. Chamar um conflito que, segundo 71% dos entrevistados de uma pesquisa Quinnipiac, pode durar meses ou anos de “excursão” quase finalizada, ou buscar uma “rendição incondicional”, é uma simplificação perigosa que subestima a complexidade da realidade e a dignidade humana.
É verdade que a lealdade de uma base política pode ser resiliente, capaz de reinterpretar ações que parecem contradizer promessas. Há quem veja nas decisões belicistas de Trump uma manifestação de “força” e defesa intransigente dos interesses nacionais, do “America First” sobre a estrita não-intervenção. Para esses, a figura do líder forte, que enfrenta ameaças com decisão, pode prevalecer sobre a memória de um programa eleitoral. Contudo, essa reinterpretação, quando feita para justificar o injustificável ou para mascarar uma evidente guinada, serve mais à idolatria do Estado ou do líder do que à reta razão e ao bem comum. A virtude da prudência, cara a São Tomás de Aquino, exige que se avalie não apenas a intenção imediata, mas as consequências de longo prazo de cada ação, especialmente quando envolvem o derramamento de sangue e a desestabilização de regiões inteiras.
A legítima preocupação com a segurança nacional não é uma carta branca para qualquer ação militar, nem anula o dever de um governante de buscar a paz e a justiça por meios pacíficos, a menos que todas as outras vias tenham se esgotado e a agressão seja manifestamente grave. A “excursão” belicista, com suas milhares de vítimas e sua instabilidade regional, mostra que o custo humano e econômico da aventura é altíssimo, e não se pode reduzi-lo a uma simples tática política. O paradoxo chestertoniano aqui é cruel: busca-se a segurança semeando a insegurança, e promove-se a ordem através do caos. É o senso comum, tão defendido por Chesterton, que se rebela contra a ideia de que a guerra é um atalho eficaz para a paz duradoura.
A autoridade legítima impõe deveres graves, e a verdade é um deles. Um governante tem o dever de ser sincero com seu povo, especialmente em questões de vida ou morte. A disparidade entre a promessa de campanha de evitar guerras e a realidade de um conflito sangrento gera não apenas o sentimento de traição, mas uma erosão da confiança pública na política e em seus representantes. Não é uma questão de mero “nichos vocais” ou “minoria”, mas de princípios que tocam a probidade e a coerência de uma liderança. O desvio dos princípios da Doutrina Social da Igreja, que preconiza a solidariedade, a subsidiariedade e a busca incessante pela paz como frutos da justiça, é uma desordem moral que nenhuma retórica de “força” pode justificar.
O Polemista Católico, em face de tal cenário, não pode silenciar. Deve-se afirmar que a guerra, com seus efeitos devastadores, exige uma justificação que vá muito além da conveniência política ou da percepção de “força”. A dignidade da pessoa humana, os direitos fundamentais e o bem comum de todas as nações não podem ser sacrificados no altar de uma política externa errática.
O verdadeiro líder, portanto, não é aquele que faz a guerra ser confundida com um passeio, mas aquele que, mesmo em tempos de tensão, busca incansavelmente a paz através da justiça, da verdade e do diálogo. A história, e com ela a consciência de milhões, cobrará o preço daqueles que trocam a promessa de paz pela ilusão de uma guerra rápida e “quase terminada”. Pois, no fim, o custo da desordem moral sempre é mais alto do que qualquer vitória militar.
Fonte original: O Cafezinho
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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