A força que se anuncia em brados de aniquilação é, muitas vezes, a primeira confissão de uma impotência estratégica, um rugido que camufla a ausência de uma verdadeira arte de governar. O espetáculo do resgate de pilotos americanos, com seus lances dramáticos de heroísmo e proezas técnicas, serviu à Casa Branca como um breve bálsamo para o alto custo admitido da guerra no Oriente Médio. Contudo, em vez de consolidar uma via para a paz, o presidente Donald Trump, em menos de 24 horas, elevou a aposta com um ultimato de destruição sem precedentes, ameaçando dizimar um país inteiro, suas usinas elétricas e pontes, em uma única noite. Tal retórica, que justifica o ataque a alvos civis chamando os oponentes de “animais”, revela não apenas um desprezo pelas normas de guerra, mas uma corrosão da veracidade essencial à ordem pública e à estabilidade internacional.
A Doutrina Social da Igreja, inspirada na lei natural e no raciocínio de São Tomás de Aquino, sempre ressaltou a distinção fundamental entre o regime político e o povo que ele governa. Reduzir uma nação inteira a um rótulo desumanizante para justificar sua “demolição completa” é um vício ideológico perigoso, uma falha em reconhecer a dignidade intrínseca de cada pessoa, mesmo sob um governo tirânico. As ameaças explícitas de atingir infraestrutura civil, sob qualquer pretexto, flertam perigosamente com a barbárie e configuram, aos olhos do direito internacional e da moral cristã, crimes gravíssimos. A sanha por uma vitória rápida e espetacular obscurece a prudência que exige a distinção entre combatentes e não-combatentes, entre o uso legítimo da força e a crueldade sem limites.
A recusa de Trump em considerar a contraproposta iraniana de “dez pontos” como “não suficiente”, ao mesmo tempo em que ignora a proposição de cessar-fogo de 45 dias do Paquistão, fecha as portas da diplomacia e intensifica o risco de uma escalada incontrolável. A imposição de prazos arbitráis e a retórica maximalista, longe de amolecerem a resistência, tendem a endurecê-la, criando um ciclo vicioso de retaliação e sofrimento. A experiência histórica demonstra que a presunção de que a ameaça de destruição total levará à capitulação ignora a complexa resiliência dos povos e regimes, especialmente no Oriente Médio, onde a humilhação pode ser um catalisador mais potente para a resistência do que para a rendição.
Uma verdadeira estratégia de paz, que não se confunde com a mera ausência de guerra a qualquer custo, requer uma magnanimidade que transcende o imediatismo e a paixão. Ela exige a honestidade de reconhecer os custos reais da guerra — financeiros, humanos e morais — e a sabedoria de buscar soluções que perdurem, baseadas na justiça e no bem comum das nações, e não no mero exercício de poder bruto. O alto custo já admitido da guerra não se reduzirá com a ampliação de sua fúria, mas com o esforço sincero para a desescalada e o diálogo. A verdade pública não pode ser vítima da propaganda de guerra, nem a esperança de um futuro mais estável pode ser sepultada sob as ruínas de uma “demolição completa”.
O Polemista Católico, ao julgar a conduta dos povos, não se exime de advertir que a retórica que incendeia pontes e usinas, que reduz seres humanos a meros “animais”, não está a serviço de um futuro mais justo ou de uma paz duradoura. Pelo contrário, ela semeia o caos, destrói a confiança mútua e subverte a ordem internacional que a própria Igreja defende. O martelo que se propõe a esfacelar um país inteiro só produzirá cacos e feridas que levarão gerações para cicatrizar, deixando um vácuo de poder instável e um legado de ressentimento.
A paz duradoura não se ergue sobre ruínas fumegantes, mas sobre a rocha da justiça e da prudência, edificada com a paciência da verdade e o respeito inalienável à vida.
Fonte original: globo.com
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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