A voz do poder, quando se desvirtua em grito, por vezes revela menos força e mais a fragilidade de um espírito embriagado de si. O ultimato do Presidente Trump ao Irã, com prazo marcado e ameaças de fogo sobre usinas e pontes, não é um sinal de firmeza, mas um rasgar impiedoso da ordem moral que sustenta a civilização e a esperança de uma paz justa. Referir-se a líderes como “filhos da puta loucos” e anunciar que “queimariam no inferno” não é linguagem de estadista, mas de um déspota em delírio, cego à dignidade da pessoa humana e ao mínimo decoro exigido para governar nações.
A gravidade do momento é inegável. A capacidade do Irã de produzir uma arma nuclear “em um dia” e seu avanço no enriquecimento de urânio para mais de 80% são, de fato, cenários que exigem uma resposta internacional robusta e coerente. A ameaça ao Estreito de Ormuz, via vital para o comércio global, não pode ser ignorada. No entanto, a legítima preocupação com a proliferação e a segurança energética não pode servir de pretexto para o abandono total do direito e da moral. Quando o Presidente declara que “não precisa do direito internacional” e que seu limite é “Minha própria moralidade”, ele não apenas revela uma ignorância abissal sobre os fundamentos da coexistência entre os povos, mas se alça a um patamar de arrogância que nenhum governante pode reivindicar sem cometer uma grave ofensa contra a justiça.
A Doutrina Social da Igreja sempre insistiu na distinção irrenunciável entre combatentes e não-combatentes. Bombardear “todas e cada uma das usinas de energia” e terminais de petróleo civis, como ameaçado, é um crime contra a humanidade, uma violação explícita do Estatuto de Roma e do Direito Internacional Humanitário. Não é um ato de guerra legítima, mas de terrorismo de Estado. A verdadeira fortaleza se manifesta na proteção dos inocentes, mesmo em meio à fúria do conflito, e não na promessa de destruição indiscriminada de tudo o que sustenta a vida de um povo. Pio XII já advertia sobre os perigos de transformar um povo em massa anônima, sujeita aos caprichos de uma autoridade desmedida, desprovida de limites morais.
Chamar de “tolos” os americanos que se opõem à guerra é um insulto à consciência moral e à razão. É uma tentativa de calar a voz que clama por prudência, por um discernimento político que não confunda a força com a barbárie, e a segurança com a aniquilação. A guerra, se for inevitável, deve ser sempre o último recurso, travada com os meios proporcionais e com a clara intenção de restaurar uma paz justa, e jamais para satisfazer impulsos vingativos ou objetivos de “decapitação” de regimes, que na prática se traduzem em caos e sofrimento prolongado. A escalada atual, com o Irã retaliando e se recusando a ceder, já demonstra que a lógica da “destruição cega” não leva à vitória rápida, mas a um pântano de desgaste e miséria.
Chesterton, com sua perspicácia, diria que a verdadeira sanidade se manifesta na distinção do que é real do que é pura abstração ideológica ou megalomania pessoal. A ideia de que um único homem pode se postar acima de séculos de direito e tradição moral, decidindo o destino de milhões apenas pela sua “própria moralidade” — que se revela indistinta da arbitrariedade —, é a epítome da loucura lógica que o mundo moderno insiste em aplaudir. Os desafios impostos pelo Irã são reais e graves, mas a solução não virá da demolição da lei e da moral, e muito menos da instrumentalização de vidas humanas como peças em um jogo geopolítico.
A justiça é a bússola que deve guiar as nações, mesmo em tempos de crise. É preciso buscar caminhos que conjuguem a firmeza contra a proliferação nuclear com o respeito inegociável à vida e à soberania dos povos, sob um arcabouço de direito internacional que, embora imperfeito, é o guardião mínimo da paz. A verdadeira segurança não floresce da terra arrasada, mas da reta ordenação das coisas, onde cada nação tem seu lugar e cada pessoa sua dignidade, e onde a força se submete à razão e ao imperativo moral.
O alarme do “Dia das Usinas” não é uma ameaça justificada, mas uma confissão da falha radical em governar com sabedoria, justiça e moderação.
Fonte original: Tribuna do Norte
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.