A notícia de que o presidente Trump recusa um cessar-fogo com o Irã, sob termos que considera insuficientes, é como observar uma represa que racha sob a pressão de uma torrente impetuosa. Não se trata apenas de uma manobra política; é uma aposta altíssima com o destino de milhões e a estabilidade de uma região já em frangalhos. A vida civilizada, erigida sobre a paciente construção de leis e acordos, não pode ser refém de um cálculo obscuro ou de uma diplomacia que se alimenta de silêncios.
Há quinze dias, desde a morte do líder supremo Ali Khamenei em um ataque militar dos EUA, o conflito escalou vertiginosamente. Bombardeios americanos na Ilha de Kharg, um terminal vital de exportação de petróleo, foram reciprocados por ameaças iranianas de retaliação maciça à infraestrutura petrolífera ligada a empresas dos EUA. Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento iraniano, já prometeu abandonar a moderação e atacar com força os invasores no Golfo Pérsico. O custo, já estimado em US$ 11,3 bilhões para os Estados Unidos na primeira semana de ofensiva, é uma gota no oceano do que virá se a escalada não for contida. O receio de uma conflagração generalizada, com o colapso econômico global à reboque da volatilidade dos preços do petróleo e a ruína de vidas inocentes, não é mero alarmismo; é uma preocupação legítima que clama por responsabilidade.
É possível que o cálculo de Trump seja o de elevar a aposta, buscando uma posição de força para negociar termos “muito sólidos” no futuro, como ele próprio aventou. A recusa em ceder a “termos não bons o suficiente” pode ser vista, por alguns, como a defesa intransigente de interesses nacionais contra o que seria um precedente de fraqueza perigosa. No entanto, esta estratégia, quando envolta em opacidade, revela uma grave deficiência na veracidade e na prudência que deveriam guiar o homem de Estado.
Quais são, afinal, os “termos” iranianos que foram considerados insuficientes? Qual é a “estratégia de saída” dos Estados Unidos para este conflito? Como se pretende mitigar os riscos de uma devastação econômica e humana sem canais abertos de diálogo e sem comunicar ao mundo os critérios para uma negociação aceitável? A ausência de respostas claras a estas questões não é um mero lapso de comunicação; é uma falha na ordem moral pública que Pio XII tão bem defendeu, e na comunicação responsável exigida de quem detém o poder da guerra e da paz. A diplomacia, mesmo em tempos de guerra, exige uma honestidade mínima quanto aos objetivos e aos meios, sob pena de tornar a força uma mera expressão de arbítrio desmedido.
São Tomás de Aquino nos ensina a distinguir entre fins e meios, e a ordenar os bens. A busca por uma vantagem tática ou uma demonstração de força não pode sobrepujar o bem maior da paz, da vida humana e da estabilidade regional. A intransigência cega, desprovida de um horizonte claro e de uma comunicação responsável, transforma a fortaleza em teimosia e a defesa dos interesses em imprudência temerária. Não se constrói uma ordem justa semeando o caos sem um plano de colheita ou sem atentar para o sofrimento daqueles que serão esmagados pelo conflito. A sanidade, diria Chesterton, reside em ver as coisas como elas são, não como gostaríamos que fossem, e a realidade, nua e crua, é que o jogo de pôquer bélico raramente termina com um só vencedor e sem mesa virada.
A autoridade legítima não se manifesta apenas em sua capacidade de infligir dano ou de recusar; manifesta-se principalmente em sua habilidade de discernir a melhor via para a paz ordenada. Recusar-se a negociar, quando o preço são vidas e a ruína de uma região inteira, sem antes comunicar com clareza os critérios para um acordo, é exercer o poder com uma ambiguidade que beira a irresponsabilidade. A justiça exige mais do que uma demonstração de força; exige um caminho, visível e ponderado, para a estabilização e a reconstrução.
Fonte original: Diário do Centro do Mundo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.