O alimento, dom de Deus e sustento da vida, transformou-se nas redes sociais em um campo de batalha, onde a saúde da alma e do corpo é a primeira vítima. O que deveria ser um ato simples e vital de nutrição, agora é objeto de um culto distorcido, um “estilo de vida” que, na verdade, é um caminho para a doença e para a morte. A naturalização de transtornos alimentares como anorexia e bulimia, amplificada por algoritmos e disfarçada de busca por “bem-estar”, é um dos mais perversos paradoxos da nossa era digital.
Os fatos são alarmantes e desenham um cenário de verdadeira devastação. Crianças de apenas nove anos já estão em tratamento. Pacientes exibem perdas de peso extremas. Há o uso irresponsável de “canetas emagrecedoras” por quem sequer tem sobrepeso, abrindo novas portas para a autodestruição. Mais da metade dos conteúdos que promovem esses males, segundo a apuração, vêm de profissionais de nutrição, que deveriam ser guardiões da saúde, não seus promotores de desvirtuamento. Em 2025, a rede pública brasileira registrou quase mil atendimentos e trezentas internações por transtornos alimentares. Os números não são estatísticas frias; são o grito de dor de vidas jovens esmagadas pela falsidade e pela obsessão.
Aqui, a veracidade é a virtude mais premente a ser resgatada. Chamar uma doença psiquiátrica de “estilo de vida” não é liberdade de expressão; é uma mentira corrosiva que assalta a dignidade da pessoa humana em seu cerne, atacando o corpo que é templo do Espírito Santo e a mente que busca a verdade. A inversão moral é gritante: o que antes circulava em fóruns obscuros como um segredo vergonhoso, agora se normaliza em plataformas acessíveis a milhões de jovens em formação. Não se trata de uma simples questão de estética ou de opções pessoais, mas de uma grave patologia que destrói o indivíduo e abala a família, primeira sociedade e célula vital.
É certo que a moderação de conteúdo deve ser feita com discernimento para não resvalar em censura arbitrária. Há uma preocupação legítima de que a remoção excessiva empurre discussões para ambientes ainda mais insalubres e inatingíveis, ou que silencie as vozes de quem luta pela recuperação ou compartilha experiências de saúde genuínas, mesmo que impopulares. No entanto, é preciso traçar uma linha clara: a promoção ativa de condutas objetivamente prejudiciais à vida e à saúde, especialmente quando disfarçada de ideal, não é liberdade; é irresponsabilidade criminosa. As plataformas digitais, que se beneficiam da audiência e da visibilidade, não podem se eximir da justiça de exercer um controle ético sobre o que é veiculado em seus domínios, cumprindo sua responsabilidade social como “mídia responsável”, conforme alertou Pio XII.
A tarefa não é só de remoção de conteúdo, mas de edificação cultural. É preciso fortalecer as defesas naturais que residem nos corpos intermediários – a família, a escola e a comunidade –, onde os jovens deveriam aprender a reta ordenação dos bens e o valor da temperança. Aos profissionais de saúde, exige-se fidelidade ao juramento e à ética da profissão, e ao Estado, uma política pública que olhe para a doença em suas causas mais profundas, oferecendo tratamento e prevenindo a sedução das falsas identidades. Não se pode permitir que a busca por uma identidade na massa se dê ao preço da saúde e da própria existência.
O desafio está em construir uma cultura que valorize a integralidade da pessoa, que celebre a vida em sua plenitude, e não a caricatura de corpos adoecidos ou mentes perturbadas. A sanidade, como Chesterton nos lembraria, não é a ausência de loucura, mas a recusa de aceitar a loucura como razão. Não podemos assistir inertes enquanto a verdade do corpo e da alimentação é subvertida por um espelho distorcido das redes, tornando a doença um falso ideal a ser seguido.
Fonte original: globo.com
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.