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Torta 2 de Itu: 50 Anos de Resíduo Radioativo e Risco

Em Itu, a 'Torta 2', resíduo radioativo com 50 anos, persiste como risco. Este artigo analisa a falha na contenção, a opacidade da INB e a urgência de um plano nacional para descarte seguro.

🟢 Análise

Em um recanto do interior paulista, sob a terra calma de Itu, reside há quase cinco décadas uma ferida aberta que teima em não cicatrizar: o resíduo radioativo conhecido como “Torta 2”. São 3,5 mil toneladas de material, fruto do tratamento do minério de monazita, estocadas em sete silos de concreto que, com seus 20 centímetros de espessura, pretendem conter um perigo cuja meia-vida desafia a própria escala da história humana. O que começou em 1975 como um depósito discreto e, segundo o ex-prefeito Lázaro Piunti, “clandestino” e uma “agressão à autonomia do município”, tornou-se o emblema de uma responsabilidade continuamente adiada, passada de geração em geração como um legado tóxico.

O histórico de opacidade é um enredo conhecido, minando qualquer confiança depositada nas garantias oficiais de segurança. A descoberta casual por uma professora rural em 1979, o acirramento da controvérsia que chegou ao Jornal Nacional, o inquérito do Ministério Público arquivado sem respostas definitivas nos anos 90, e a frustrada tentativa de venda do material para a China em 2013, que esbarrou em impasses de licenciamento ambiental, são capítulos de uma narrativa que se repete. Agora, em 2024, um novo edital de oferta pública da Indústrias Nucleares do Brasil (INB) anuncia mais uma tentativa de se livrar do incômodo passivo, disfarçando-o de “insumo estratégico sem utilidade” para a empresa. Mas a realidade é que não se trata de um ativo comercial comum; é um ônus material e moral, uma dívida ambiental.

A tese de que os silos atuais, monitorados por dosímetros e com análises sem alteração nos mananciais, são seguros para a saúde pública ignora a temporalidade. O físico Paulo Massoni, do IFSP, não hesita em questionar a integridade de uma blindagem de concreto de quase 50 anos, advertindo que “se algum dos compartimentos estiverem danificados, pode sim ‘vazar’ radiação”. A radiação, com sua capacidade de quebrar moléculas de DNA e causar câncer, não é um risco que se possa adiar indefinidamente. O que se ignora, portanto, é que a segurança, neste caso, não é um estado estático, mas uma vigilância ativa e um plano de desativação que inexiste, legando o problema para o futuro sem um roteiro claro de resolução permanente.

É aqui que a justiça se ergue como virtude primária, exigindo que o fardo de um material tão perigoso não seja meramente transferido, mas adequadamente administrado e remediado. A imposição original do depósito, que desconsiderou a autonomia municipal e a voz do povo de Itu, feriu o princípio da subsidiariedade, que busca resolver os problemas na instância mais próxima dos afetados. O governo federal não pode, por conveniência econômica ou falta de planejamento, impor um risco existencial a uma comunidade e a gerações futuras, sem um plano definitivo e verdadeiramente seguro. A busca por um comprador é uma manobra comercial que não anula a responsabilidade intrínseca de lidar com um resíduo de tal magnitude.

A verdade, a veracidade, é a segunda virtude que se impõe. As lacunas sobre o estado real da infraestrutura de contenção, a falta de um plano de descarte final que não seja a mera exportação do problema, e a história de “licenciamento corretivo” por décadas, demonstram uma falha em ser transparente e honesto com a população. A INB e a Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) devem não apenas monitorar, mas apresentar uma avaliação detalhada e independente da integridade dos silos, além de um plano de contingência robusto e um cronograma para uma destinação final definitiva, que priorize a segurança sobre a oportunidade de venda. A retórica de que é um “insumo estratégico” enquanto se tenta vendê-lo a preço vil é, para citar Chesterton, um paradoxo que revela a loucura lógica de quem tenta se livrar de um problema chamando-o de solução.

A memória do acidente do Césio-137 em Goiás, com suas quatro mortes oficiais e a contaminação duradoura, serve como um alerta sombrio de que a negligência com materiais radioativos é uma chaga social que não se apaga com o tempo. A venda da “Torta 2” é uma tentativa de fechar os olhos ao problema, ao invés de enfrentá-lo com a seriedade que a matéria exige. É eticamente inaceitável para uma nação tentar exportar um passivo ambiental de tal envergadura, ainda mais quando a experiência anterior de 2013 já mostrou os impedimentos logísticos e ambientais de uma solução tão simplória.

A comunidade de Itu e as futuras gerações não podem ser as reféns de um passivo histórico que se eterniza por falta de uma decisão corajosa e justa. A solução não está em leiloar o risco, mas em assumir a responsabilidade integral. O Brasil deve desenvolver uma política nacional de resíduos nucleares que contemple um descarte final seguro e permanente, dentro de suas próprias fronteiras, com o máximo de transparência e participação das comunidades afetadas. Não se pode negociar a segurança de um povo em nome de uma conveniência imediata. O que a “Torta 2” de Itu exige não é uma nova tentativa de venda, mas um compromisso inabalável com a vida, a justiça e a verdade, mesmo que o custo seja alto e a solução demorada. A paciência da terra e a memória dos homens não apagam a radioatividade do descaso.

Fonte original: globo.com

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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