O verde que tomou conta de cem quilômetros do rio Tietê, no interior de São Paulo, não é um tom de esperança ou o alvorecer da primavera, mas a cor sombria de uma doença que se arrasta. Imagens de satélite registram a proliferação avassaladora de cianobactérias, um fenômeno que, embora rotulado como “comum para esta época do ano” devido a chuvas e altas temperaturas, revela a fragilidade de um ecossistema vital e a inação de uma comunidade que deveria protegê-lo. É um sinal gritante de que a natureza, quando abusada, não tarda a apresentar a conta.
A explicação oficial, que associa a eutrofização a condições climáticas favoráveis, soa como um analgésico aplicado a uma ferida exposta. Afinal, a intensidade da proliferação algal não é apenas um capricho do tempo; é diretamente proporcional à carga de matéria orgânica e nutrientes lançada nas águas. Se o problema persiste e se agrava, com relatos de mortes de peixes e mau cheiro que sufoca os moradores de Adolfo, Novo Horizonte, Sales e Buritama, é porque as causas profundas da poluição antropogênica ainda não foram devidamente enfrentadas. A “atuação” da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil) desde março de 2025, no “combate a irregularidades às margens do rio”, parece não ter sido suficiente para conter a sangria.
Neste cenário, a chamada de atenção para a justiça é imperativa. Não basta combater “irregularidades genéricas” ou focar em “pontos críticos de despejo de dejetos” sem nomear os responsáveis e quantificar as fontes. Onde estão os esgotos domésticos não tratados que chegam ao rio? Quais indústrias lançam efluentes sem o devido tratamento? Que práticas agrícolas contribuem com o escoamento de nutrientes que alimentam as algas? A Doutrina Social da Igreja, desde Leão XIII, insiste na função social da propriedade, lembrando que o uso de bens, sejam eles terras ou rios, impõe deveres de conservação e respeito ao bem da comunidade. O rio Tietê, um bem comum inestimável, exige que sua integridade seja protegida contra os interesses privados que o degradam.
A persistência do problema, após um ano de intervenções governamentais, sugere um risco: a burocratização da ineficácia. Pio XI, em suas encíclicas, advertia contra a “estatolatria”, quando o Estado, em vez de servir o bem comum com diligência e resultados concretos, se torna um fim em si, com ações meramente protocolares que não atacam a raiz dos problemas. A coordenação entre Cetesb, Secretaria de Agricultura, Polícia Ambiental e Prefeituras é fundamental, sim, mas sua efetividade será julgada pela purificação do rio, e não pela proliferação de relatórios. A responsabilidade por um rio que agoniza não se dilui na complexidade institucional; ela se solidifica na falha em prover soluções duradouras.
A “banalização” de um evento de degradação ambiental tão grave como “comum” é um reducionismo perigoso. É a negação da veracidade que a situação exige. Ao aceitar a cianobactéria como parte do ciclo natural, ignoramos a intervenção humana que sobrecarrega o ecossistema com uma abundância de nutrientes, tornando-o incapaz de se regenerar. A mortandade de peixes, a poluição do ar e a contaminação da água para consumo humano são custos reais, internalizados pelas comunidades mais vulneráveis, enquanto as fontes de poluição permanecem, muitas vezes, nas sombras. É preciso coragem para nomear o agressor e, mais ainda, para exigir que se pague a dívida ambiental e social acumulada.
Não se trata de negar os desafios climáticos, que inegavelmente agravam o cenário. Mas a mudança climática não pode servir de biombo para a irresponsabilidade na gestão de resíduos e efluentes. A verdadeira solução exige um compromisso firme com a justiça ambiental, que imponha metas claras, fiscalização rigorosa e investimentos efetivos em saneamento básico e controle da poluição industrial e agrícola. É um chamado à laboriosidade e à honestidade de propósito, para que o que é dito corresponda ao que é feito, e o que é feito, ao que é efetivamente alcançado.
O rio Tietê não pede apenas monitoramento; clama por cura, por uma restauração que o devolva à sua função vital, limpo e abundante. Somente um esforço que una a técnica com a ética, a ação governamental com a responsabilidade cidadã e empresarial, poderá silenciar o grito mudo de suas águas e afastar a sombra de uma degradação que nos envergonha. O preço da inação é caro demais para ser pago pela nossa posteridade.
Fonte original: Folha de S.Paulo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.